SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 15 de março de 2016

O abandono da razão no debate político


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A vida inteira eu escutei: “Política, religião e futebol não se discute”. Isso sempre me incomodou. O argumento dizia que não deveríamos conversar sobre esses temas porque eles seriam de foro íntimo, as escolhas nessas áreas seriam “gostos pessoais”. Isso também sempre me incomodou.

Ok, eu posso aceitar que futebol e religião são assuntos espinhosos, que contam com a fé e a torcida como combustível. Porém, a política não. Da política dependem os rumos da vida de todos nós. Da política depende se nós vamos ser mais ou menos livres, teremos oportunidades mais ou menos desiguais ou estaremos mais ou menos seguros. Da política depende se poderemos falar sobre o que quisermos, criticar, amar quem quisermos, ficar pela rua até altas horas, ganhar um salário justo, buscar a oportunidade de economizar e empreender ou usar a roupa que bem entendermos. E essas são apenas algumas questões.

É, portanto, mais do que necessário discutir, conversar e debater sobre política. Ponto para o Brasil atual? Sem chance. O que nós estamos fazendo não é debater, discutir ou conversar sobre política. Nós estamos fazendo exatamente como fazemos nos estádios de futebol ou nas igrejas. Nós estamos tomados pela fé, pela torcida ou pelo emocional. É óbvio que todas as coisas da vida batem em nós também pelo lado emocional. Faz parte. O problema parece ser o completo abandono da razão como ferramenta no debate político. Sem adicionarmos às nossas opiniões políticas fatos, estudos, informações e, assim, nos tornarmos mais conhecedores dos acontecimentos, sem sequer tentarmos isso, aí mover-se na política tende a ficar, enfim, impraticável.

Quando eu participava de torcidas de futebol, me dei conta de que ali não havia nenhuma racionalidade. Havia fé, torcida, emoção, disposição, qualquer coisa, menos racionalidade. Uma pequena faísca poderia virar grave violência, entre si ou contra o rival. Insisto que, se continuarmos confundindo uma crítica política da situação histórica brasileira, com uma crítica à política de modo geral, estaremos cavando um buraco muito profundo. Nele, o fascismo costuma fazer a festa.

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