SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 29 de março de 2016

Tenebroso roteiro no ar

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Há um roteiro tenebroso no ar. Avança o impeachment. Sai o PT. Os fanáticos anti-PT fazem a festa pelas ruas do país, bebendo e comendo, de champanhe a filé, tudo bancado pelas associações das classes abastadas brasileiras. Será que alguém dessa turma volta às ruas para pedir a saída do sempre-governo PMDB e suas dezenas de parlamentares acusados de corrupção? Duvido muito.

O governo do PMDB segue instável até 2018, mas a maré verde-amarela desaparece das ruas. Sobram os “indignados com tudo isso” e os petistas. Os petistas voltam inflados para a oposição, com ares de injustiçados, como se não tivessem colocado o PMDB na sua própria chapa em duas eleições presidenciais, como se não tivessem cedido uma parcela gigante do governo para o PMDB sempre-governo. Indignados e petistas, somados àqueles que acreditam na necessidade de uma nova política, de novas regras e atores, pessoas independentes ou de movimentos e organizações menores, tendem a voltar às ruas, não aceitando a mentira deslavada da “estabilidade” ao sabor das velhas oligarquias.

Nas ruas, todos nos encontraremos com uma lei Anti-Terrorista carimbada pelo quarto mandato presidencial do PT. Encontraremos os aparatos de repressão do Estado como sempre, daquele mesmo jeito, violento e intimidador, não como nos domingos de selfie com os verde-amarelos. O cerco estará mais armado do que nunca. A criminalização da esquerda e dos manifestantes em geral, que já existe e se manifesta com clareza, pelo menos, desde os protestos de junho de 2013, caminhará a passos ainda mais largos. Não haverá selfies. Todo cuidado poderá ser prudente. Ah, e a arapuca terá sido armada de uma vez por todas nos governos do próprio PT, com as suas taxas de encarceramento em massa, seu endosso lamentável ao desastre que se mostra a política de segurança pública no Rio de Janeiro, o desrespeito às comunidades tradicionais e etc. Baita tiro no pé.

Mas o roteiro pode ir mais longe. Dos inúmeros projetos que tramitam no Parlamento, ávidos por retirar direitos dos trabalhadores e das classes populares, além de atacar direitos individuais de mulheres e homossexuais, muitos deles estarão contemplados na “Ponte para a Idade Média” proposta pelo PMDB. Negociações entre patrões e empregados valendo mais do que a Legislação, tornando o 13º salário, as férias remuneradas e o descanso semanal remunerado "questões" a negociar com o empregador; ataques aos servidores públicos, sempre considerados ineficientes e burocráticos, sem se considerar as diversidades entre as diferentes funções públicas e as diferenças salariais; possíveis cobranças de mensalidade em Universidades e Institutos Federais; desvinculação das obrigatoriedades orçamentárias para com saúde e educação, sucateando (mais ainda) esses setores; enfim, a lista de ataques pode se estender*.

Daí, lá em 2018, com as alternativas políticas em frangalhos, com a possibilidade de que o desespero se traduza numa crítica à política de modo geral, virá uma nova eleição presidencial. Talvez com algumas das ofensivas acima ainda por fazer, talvez com outros ataques em vista. O fato é que o contexto para a defesa dos direitos sociais, conquistados a duras penas durante décadas, e conquistados apenas parcialmente, poderá ser quase impraticável. Nossas contradições podem se aprofundar. Eu realmente espero estar equivocado nesse roteiro. Só que com o caráter das nossas principais instituições democráticas se mostrando a cada dia, o meu medo de acertar é muito grande.

* Há muitos projetos em curso no Congresso Nacional cujos objetivos antagonizam com direitos sociais e individuais. Alguns deles estão listados aqui.
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