SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 4 de março de 2016

Uma democracia de baixa intensidade


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia de hoje, três das instituições mais relevantes das sociedades modernas mostraram bem a sua cara no Brasil. E é uma cara preocupante, a cara do que Boaventura de Sousa Santos chamou de “democracia de baixa intensidade”.

Na política, um ex-presidente com forte apelo popular é ouvido pela Polícia Federal. Até aí, faz parte. Ninguém deve estar acima da lei. Se há indícios e suspeitas, como existem, há de se investigar e, depois de garantidos os procedimentos legais de defesa, atribuir as devidas responsabilidades. Mas o que se viu foi a polarização tomar conta. O ódio visceral ao PT babando e mordendo; o amor visceral ao PT babando e mordendo. Nas ruas, a pancadaria prestes a explodir. Em Brasília, a briga oligárquica sangrenta pelo Poder Executivo fervilhando.

Na imprensa, um verdadeiro espetáculo desvairado, repleto de adjetivos, opiniões e pouquíssima informação. Colunistas acusando como juízes. Jornalistas parecendo crianças que ganharam um brinquedo novo. Anúncios de editores de grandes veículos, ainda na madrugada, de que o dia seria belo e divertido. Capas de revistas semanais com verdadeiras sentenças expostas. Um festival ávido pelo sensacionalismo, ávido por fazer aquilo que não é da alçada jornalística: julgar e condenar as pessoas. Informar com rigor, nada.

No Judiciário, muita confusão. Ministros do STF condenando a forma coercitiva de chamar um ex-presidente para depor. Um juiz e seus parceiros, com operações que, curiosamente, sempre vazam para a grande imprensa momentos antes de acontecerem, colocando as vestes de justiceiros e ganhando ares de autoridades máximas da nação. A seletividade imperando, pois o “Merendão”, o “Trensalão”, o “Mensalão Tucano”, a “Lista de Furnas” e tantos outros escândalos não se movem. O braço direito do Estado, como diria Pierre Bourdieu. Aqueles que recebem salários extravagantes (acima do teto do serviço federal). Aqueles que recebem auxílio-moradia com valores quatro vezes maiores do que o salário médio do brasileiro.

Não parece haver mais espaço para golpes militares. No século XXI, o sequestro da democracia liberal – que já tem problemas diversos – tem tudo para ser orquestrado por dentro das próprias estruturas democráticas. Vamos construindo um cenário ainda mais autoritário, cuja democracia perde, passo a passo, em intensidade. Direitos civis e sociais perdem ainda mais força. Sangram os de sempre.

No fim, o perigo mais preocupante pode advir de algo que vem sendo engendrado há anos. No desespero, ao invés da crítica política, da busca por soluções e novas feições para a política, pode tomar conta a crítica à política. E a crítica à política é sinônimo de pensamento único, de salvacionismo autoritário. Aí ferrou de vez.

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