SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Nunca interditar o debate

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Não tá fácil ser professor. O mais recente ataque ao ofício parece uma perseguição estilo Idade Média. Em vários estados e municípios do país, multiplicam-se projetos de lei que limitam debates em aula sobre temas “políticos, morais e religiosos”, prevendo punições graves contra professores que descumprirem a orientação. Professores de Sociologia vêm sendo demitidos por aí, em função dos seus posicionamentos particulares. Isso é muito sério e perigoso.

Sob a alegação de que a educação deve ser “neutra” e determinados temas cabem apenas à família conversar com os jovens, sofismas muito questionáveis, passo a passo vai se construindo um cenário de censura que, ao invés de fortalecer a democracia, pode ajudar a minar o seu terreno. Reduzir o espaço de diálogo sobre assuntos fundamentais da vida em sociedade e impor o medo aos profissionais da educação são características típicas do autoritarismo e de suas variantes.

Na prática, cria-se uma espécie de mordaça aos docentes das Ciências Humanas. Fico imaginando como um professor de História, de Sociologia ou de Filosofia pode deixar de abordar pautas “políticas, morais e religiosas” nas suas aulas. Como isso pode ser possível? São pautas inerentes a essas matérias, e a exposição e confrontação de ideias e argumentos antagônicos é um exercício necessário para o ato de pensar e para o próprio conhecimento.

Se a moda da mordaça se espalhar pelas salas de aula brasileiras, atente-se para o fato de que não apenas os professores considerados de esquerda poderão estar em apuros. Sim, porque por trás de ideias retrógradas como essas está a sanha por eliminar o pensamento de esquerda, entendido como hegemônico - outra coisa muito questionável. Só que aqueles que babam contra a esquerda não percebem que o veneno do autoritarismo pode trazê-los problemas também.

Como? Partindo da concepção dos projetos, em que os estudantes ou pais que se sentirem afrontados pelo tratamento em aula de alguma temática “política, moral ou religiosa” devem dedurar o professor, está aberta a caça às bruxas. E se um estudante de esquerda, oriundo de família de esquerda, dedurar o seu professor que apresentou a trajetória do liberalismo e do capitalismo? E se um estudante ateu ou agnóstico dedurar o seu professor, tendo em vista que ele apresentou a trajetória do cristianismo ortodoxo nos últimos vários séculos?

Estes projetos beiram ao absurdo, na medida em que constrangem qualquer debate sério e limitam a capacidade de articulação do pensamento, sem a qual o conhecimento perde as suas bases. Que os currículos devem apresentar as diferentes tradições políticas e ideológicas, as diferentes religiões e diferentes perspectivas morais me parece bastante importante. Dar espaço para os estudantes se posicionarem, com critérios de civilidade e respeito, é um aprendizado prático para a vida em sociedade, tão cheia de diferenças. Não dá é pra calar professores e estudantes.

Max Weber, sociólogo alemão, referia-se à ética da responsabilidade como linha de conduta docente. Projetos como “Escola Livre” ou “Escola Sem Partido”, mascarados de ética da responsabilidade, propõem o silenciamento. Não tenho dúvidas de que estudantes não são “militantes em potencial que eu devo cooptar”, seja para a esquerda ou para a direita. Só que agir com responsabilidade, o que sempre procuro fazer, não é a mesma coisa que interditar o debate.

Se eu sou professor porque acredito na luta contra a barbárie, contra o ódio desmedido e a banalização da violência, porque quero fomentar o pensamento enquanto possibilidade e ajudar a construir oportunidades para todos, construir uma sociedade menos desigual, a imposição da mordaça acaba com o meu ofício. No fundo, dizendo proteger a diversidade de argumentos, com esses projetos a liberdade vai cedendo espaço ao completo obscurantismo.

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sábado, 23 de abril de 2016

PET em Debate: Por que ser professor(a)?


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

PET em Debate - Por que ser professor(a)?
Foto: Grupo Práxis - PET Conexões de Saberes (UFFS - Erechim).


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No dia 13 de abril, no Auditório do Bloco A da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim, participei de um intenso e recompensador debate sobre a profissão docente. O evento, proporcionado pelo Grupo Práxis - PET Conexões de Saberes, com a tutoria do Prof. Dr. Thiago Ingrassia Pereira, contou com ótimo público e propôs a seguinte questão: por que ser professor(a)?

Em conjunto com o Prof. Dr. Dilermando Cattaneo, docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), campus Litoral Norte, tentei delimitar possibilidades de respostas para a indagação do evento. Basicamente, meus argumentos giraram em torno da ideia de que lecionar é um ofício importante, na busca por uma sociedade com menos ódio e aberta ao pensamento como atividade preparatória para o conhecimento.


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terça-feira, 5 de abril de 2016

Simplória, a Isentona

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Complexo e Inácio, seu amigo de infância, já quase não conseguiam dividir uma cerveja. Quando se encontravam, faziam questão de se provocar. Inácio vestia vermelho até na cueca. Complexo, por sua vez, desfilava suas camisas da Seleção. A tensão os dominava.

Simplória observava os rapazes sem acreditar. Aquilo não podia ser verdade. Tanto amor, durante tanto tempo, haveria de se tornar um ódio profundo? Não podia ser. Mas Complexo e Inácio prometiam ir até o fim. Se preciso fosse, resolveriam seus problemas na porrada. Havia um único ponto em que eles concordavam.

- Tá, mas ô Complexo… e essa história da Simplória não decidir se caga ou sai da moita. Tipo, porra! Ou tu tá a favor da legalidade ou do golpe fascista!

- Vai te foder, Inácio. Golpe é essa porra de comunismo. Legalidade é o que não tem na cabeça desses facínoras que tu defende. A Simplória, sei lá, ela tá pagando de racional e estudiosa agora.

Na rua, o clima estava quente. Nas comunidades mais pobres, a guerra entre bondes e militares; em qualquer lugar, mulheres driblando o assédio; homossexuais sendo esculachados por amar quem amam; negros sendo hostilizados em função da cor da sua pele; trabalhadores perdendo direitos. A vida seguia o seu curso cruel.

Simplória estava cansada. Cansada dos maniqueísmos e também da brutal realidade. Um mundo em vários tons, um pensamento que visa a possibilidade, que não se agarra a certezas e estimula a curiosidade, tudo parecia muito longe. O diálogo estava em falta.

Desistir não fazia parte do seu vocabulário. Era uma mulher de fibra. No meio dos fanatismos, ela plantava sementes. Àqueles que se encontravam bestializados frente a briga oligárquica pelo poder maior da República, ela incentivava a autonomia, a emancipação, a auto-organização. Combatia, assim, a barbárie, o impulso da destruição, o ódio desmedido, a violência que extermina o outro diferente. Teimava.

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Gods of the Modern World

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Gods of the Modern World, de José Clemente Orozco

“Gods of the Modern World”, painel 15 da série “The Epic of American Civilization”, pintado pelo mexicano José Clemente Orozco (1883-1949), entre 1932 e 1934, inspira a reflexão sobre o papel do saber e do conhecimento na vida humana. A obra, localizada na Baker Library*, no Dartmouth College, em Hanover (EUA), tem me prendido a atenção e me feito pensar no cotidiano da atividade de professor.

Penso no que Max Weber chamou de “especialistas sem espírito”, frutos da racionalização constante da vida, em que a educação e o conhecimento podem servir mais para treinar do que para qualquer outro desígnio. Penso e me repenso. Penso, ainda, em um dos livros que estou lendo, “O mestre ignorante”, do filósofo francês Jacques Rancière. Dá pra deixar de ser um “explicador” de conteúdos, um embrutecedor do saber e das pessoas, para buscar a emancipação e a liberdade, através da motivação para conhecer?

* Vale fazer uma visita virtual na obra completa, direto da Baker Library, nesse link: http://www.dartmouth.edu/digitalorozco/app/.

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