SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 3 de maio de 2016

O silêncio de Complexo

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O impeachment avançava. Simplória, professora de matemática numa escola particular, não conseguia acreditar no que acontecia no seu país. Ela olhava para aquele que insistia em chamar de marido, um bancário chamado Complexo, e não conseguia crer no êxtase que tomava conta do rapaz. Destituir a Presidente considerada comunista era o objetivo da vida dele, era por isso que ele babava enquanto falava sobre o assunto.

No dia em que a Câmara dos Deputados votou a continuidade do processo de impedimento, Simplória notou que Complexo dava um passo atrás nas suas convicções. A cada voto dos ilustres representantes do povo, totalmente vazios de conteúdo, Complexo franzia a testa e fazia um ar de quem não gostava de alguma coisa. Simplória havia se calado, mantinha-se em estado de observação. Seria a consciência do rapaz que resolvera acordar? Seria uma súbita dor de barriga? Um surto de equilíbrio e bom-senso?

Semanas se passavam e aquilo que Complexo e os fanáticos pelo impeachment pregavam não acontecia, ou seja, a ideia de que “vamos derrubar a Presidente e depois todos os outros ladrões” estava cada vez mais longe da realidade. As velhas oligarquias, antes aliadas do governo que agora não servia mais, tramavam e sorriam sedentas pelo poder que se aproximava. Não havia mais panelaços em prédios chiques ou carreatas de veículos importados. Complexo não berrava mais nos seus intervalos para o cigarro e o café. Os fanáticos pelo impeachment silenciavam.

Todos os dias, Simplória fazia questão de mostrar para Complexo o teor dos acontecimentos que se sucediam, e como esse silêncio estava carregado de venenos. O leilão dos Ministérios do “novo” governo, antes mesmo da derrubada da Presidente eleita com 54 milhões de votos, já estava a pleno vapor. Um autoritário para a Segurança; um pastor para a Ciência e Tecnologia; um apologista do mercado para comandar a economia do Estado; assim se esboçava o traçado do “novo governo”. Assembleias de estudantes eram barradas pela Justiça. Universidades eram caladas. Professores eram limitados na abordagem de temas polêmicos. Juízes para calar a tudo e a todos, menos para julgar o colarinho branco das velhas oligarquias. O deleite dos oligarcas era claro como um dia de Sol sem nuvens no céu. O presente cheirava a tempestade e, de mansinho, a tormenta vinha chegando.

Sob o silêncio de Complexo, Simplória levantava a cabeça e vibrava com a esperança que vinha lá de dentro de si mesma, mas que também vinha das ruas e da diversidade que compõe a vida em sociedade. Esperança que vinha de escolas ocupadas por estudantes que não aceitariam mais o desmonte da educação pública e as Máfias das Merendas. Esperança em forma de auto-organização, de solidariedade e luta coletiva, de cantos e cartazes. Ela sabia que esse barulho o silêncio de Complexo e da sua horda de fanáticos não calaria sem resistência.

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