SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Um intragável filme de terror?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia em que um órgão do Governo Federal alterou a página de Paulo Freire na Wikipédia, Simplória não se aguentou. Mesmo com a usurpação do poder e o êxtase de Complexo, ela vinha mantendo um tom diplomático com seu companheiro de anos. Naquele dia, contudo, ela perdeu as estribeiras e soltou o verbo.

Ao perceber que “doutrinador marxista” e outras aberrações passavam a fazer parte do que dizia a enciclopédia livre acerca de um dos maiores pensadores brasileiros, Simplória chamou Complexo para conversar. Para a professora de matemática, o que acontecia no planeta demonstrava que a manipulação e a simplificação grotesca de ideias formavam as bases de um cenário pouco animador. Censurar professores, sucatear escolas e universidades públicas, vangloriar a desinformação e a ignorância eram combustíveis para a barbárie e para aumentar a exploração do ser humano sobre o ser humano. 

Complexo escutava. Sua esposa, como gostava de chamá-la, a despeito da rejeição que ela tinha a essa alcunha, dizia que, em todos os cantos, a resposta ao aumento das desigualdades e das violências contra as maiorias se mostrava, no mínimo, ambígua. Por um lado, muitas pessoas buscavam conhecimentos, sabedoria, marchavam pela pluralidade e diversidade respeitosa, procurando construir um mundo com mais oportunidades para todos, sem pobreza. Por outro, a resposta dada por milhões de pessoas ao devastador contexto que se apresentava era uma resposta retrógrada e autoritária. Em todos os continentes, Trumps, Bolsonaros, Le Pens e outros asseclas angariavam adeptos, num exército que enxergava na exclusão do outro, na violência contra o outro, a solução dos variados problemas que se apresentavam.

Permanecia o silêncio de Complexo. Simplória oscilava entre o desânimo e o punho cerrado, entre a tristeza e a cabeça erguida. Acreditava cada vez mais necessário um esforço descomunal para garantir liberdades individuais nas questões morais, e proteção social no conflito entre o capital e o trabalho. Sem isso, sociedades cada vez mais autoritárias e excludentes, Estados policiais e oligárquicos – pouco ou nada democráticos – fariam do futuro um intragável filme de terror.

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