SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Lutas simbólicas no século XXI


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A violência explícita das ideias e dos discursos de Trumps, Bolsonaros ou Le Pens, no fundo, esconde um argumento tão preocupante quanto a sua carcaça. Por trás da gritaria e da simplificação, parece haver uma perspectiva de que “eu e o meu grupo” merecemos uma vida digna e “vocês, os vagabundos”, não se esforçam e não servem para nada.

Não à toa, os “outros” são sempre categorias que remetem às populações em desvantagem na competição pela sobrevivência: os negros, as mulheres, os estrangeiros, os homossexuais e assim por diante. Justificar e legitimar através da atividade simbólica (ideias, argumentos, etc.) o acesso desigual a bens e recursos escassos mostra-se importante para manter as coisas como elas estão na atualidade.

O que pode ajudar a explicar a adesão crescente a essa pauta que fratura a humanidade entre pessoas merecedoras de dignidade e aquelas para as quais só resta o ódio e o desprezo? Penso que os trabalhos de Jessé Souza, polêmico sociólogo brasileiro, oferecem articulações interessantes para esse desafio¹. Não me refiro às críticas do autor às tradições da intelectualidade brasileira, que considero secundárias na sua obra. Acredito que o mais promissor se encontra na tentativa de entender como uma espécie de “ideologia espontânea” das modernas sociedades capitalistas consegue se “fixar” nas instituições e nos indivíduos em pleno século XXI; como esse ideário logra êxito em legitimar sociedades cada vez mais desiguais e excludentes?

Em primeiro lugar, é preciso reconstruir uma “hermenêutica da moralidade moderna”, isto é, estabelecer um processo interpretativo e histórico sobre como chegamos, hoje, a acreditar que determinadas ações são corretas e outras não. Estamos constantemente avaliando uns aos outros e a nós mesmos a partir de uma hierarquia valorativa não percebida. Agimos assim porque seguir ou não uma regra social e moral é, sobretudo, uma prática incorporada. Charles Taylor, filósofo canadense, diz que a identidade do sujeito moderno é constituída pelo “self”, o “eu”, dividido na busca pela dignidade, pela autenticidade e pela mobilização religiosa. O que me interessa aqui é o “princípio da dignidade” que nos conforma. Digno é aquele indivíduo fruto da Reforma Protestante, que relega os seus desejos e abraça uma economia moral calculista, voltada ao pensamento prospectivo, ao autocontrole e ao trabalho produtivo, elementos que justificam a autoestima individual e o reconhecimento social.

Se Taylor está certo em caracterizar o “conteúdo moral” que compõe as hierarquias dos julgamentos que tecemos uns sobre os outros todos os dias, falta entender como essas hierarquias se traduzem nas instituições e nas práticas individuais. No pensamento de Michel Foucault, filósofo francês, a categoria “poder disciplinar” surge dos estudos sobre as novas formas de punição nas sociedades modernas. A punição em praça pública dá lugar, no âmbito institucional, à punição discreta e atomizada. O poder disciplinar não está apenas nos mecanismos de punição, mas transforma os modos de produzir a legitimidade do ordenamento social. O indivíduo moderno se encontra constituído por essas novas “técnicas do poder”. O poder disciplinar faculta a classificação dos indivíduos e o cálculo da força de trabalho, arrolando os corpos numa “rede de relações hierárquicas”. As formatações institucionais da modernidade atualizam o princípio da dignidade descrito por Taylor. Só será recompensado pelo reconhecimento das outras pessoas aquele sujeito que incorporar o autocontrole, a disciplina e o pensamento prospectivo.

Resta investigar como esse poder disciplinar se incorpora nos indivíduos e condiciona o sentido objetivo da ação das instituições sobre a individualidade das pessoas. O conceito de habitus, de Pierre Bourdieu, sociólogo francês, permite analisar as formas como a hierarquia valorativa inarticulada, pormenorizada por Taylor e prescrita por Foucault como elemento central do poder disciplinar nas instituições modernas, capacita-se a “tornar-se corpo” nas pessoas, o que a leva a um automatismo pré-reflexivo. A noção de habitus é capaz de revelar como um sistema de estruturas cognitivas que nos motiva nas ações práticas, um sistema de disposições duráveis inscritas desde as primeiras socializações, organiza e condiciona previamente nossas possibilidades, liberdades, limites e oportunidades. A vida social consciente precisa de uma vida social inconsciente, precisa de um agregado não-dito de competências linguísticas e culturais que autoriza a vida social consciente e, em paralelo, a dinâmica pré-reflexiva do cotidiano.

Dessa forma, com a hierarquia valorativa descrita por Taylor, o poder disciplinar de Foucault e o habitus de Bourdieu, Jessé Souza articula um debate promissor para pensarmos as lutas simbólicas de classificação e desclassificação no nosso tempo². Entender o que faz com que uma multidão de pessoas tenha coragem de berrar e agredir outras pessoas, considerando-se mais merecedora de dignidade e "boa vida" que "os outros, os vagabundos”, pode passar por uma agenda de pesquisa nessa trilha. Talvez isso possa nos ajudar a construir um futuro em que a dignidade não seja um privilégio usufruído por uma parcela cada vez menor de habitantes do planeta.

Notas

¹ Destaco, sobretudo, duas obras: “A construção social da subcidadania” (BH, Editora da UFMG, 2012) e “A tolice da inteligência brasileira” (SP, Leya, 2015), essa última com o foco na “Parte III”.

² Por óbvio, este debate exige muito mais fôlego do que este pequeno texto apresenta. Além disso, o aprofundamento de pesquisas sociológicas com amplo tratamento teórico de dados empíricos pode fazer crescer bastante a compreensão dos referidos fenômenos.

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