SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Interregno

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Dias difíceis. Incertezas predominam. A tensão se alastra de vez. Na cafeteria, nem o café desce redondo. Ao meu lado, uma mesa repleta de homens. Velhos, brancos, bem alimentados, ostentando anéis dourados, sapatos lustrados e sorrisos marotos. Observo. Eles gritam em êxtase:

- Agora vai. Chega de vagabundo ou pobretão no poder. Bando de safado corrupto, tudo comunista. Tem mais é que apanhar na rua mesmo, principalmente as putinhas que ficam gritando “golpe”. Piranhas, isso é falta de rola!

Respiro fundo. Nas ruas, o pau tá comendo. A violência urbana cresce. Protestos também. O policiamento não dá conta da violência urbana. Dá conta, e com muita força, de reprimir protestos de esquerda. Nos domingos de verde e amarelo, só selfie e sorrisos, mesmo se os “de bem”, trajados de CBF, agredirem um ciclista de bike vermelha ou um gaiato qualquer usando barba ou vestindo a cor do capeta.

Nos meios de comunicação oligopolizados, a pauta é clara. Criminalizar os movimentos e o pensamento de esquerda. Atribuir à esquerda o fracasso da civilização ocidental capitalista. Atribuir à esquerda todos os males do mundo. E, por óbvio, fomentar a repressão. A roda do autoritarismo gira à brasileira. Pega o medo, o desespero, o caos, e bota nas costas da Polícia uma tarefa que não é dela: organizar a vida social e fazer política prática anti-esquerda.

Uma parte considerável da juventude simplesmente não cai mais nessa. A conta não fecha. O Brasil é extremamente injusto e desigual. Sim, o mérito e o talento devem ser recompensados. Mas não há mérito e talento que alcancem um lugar ao Sol sem equidade de oportunidades. Não há mérito e talento que se destaquem sem que haja isonomia nas relações políticas e nas oportunidades de acesso aos bens e recursos escassos. As exceções confirmam as regras. Para muitos, está claro que a conta não fecha. Vidas das periferias vão e vêm em condições subumanas, passando em branco na sua existência, acumulando ódios e mais ódios porque os desejos que se vende a todos quase nunca se tornam a sua realidade.

Na rodoviária, observo o pessoal da limpeza, os vigias, os atendentes das lojas, os cozinheiros, os garçons, os motoristas de ônibus, os vendedores de passagens. Dialogamos sobre o mundo. Ninguém desconhece o que acontece no país. Todos sabem que a política está em frangalhos. Mais uma vez, a conta não fecha. Quem me vende o prensado e o café de todas as semanas é taxativo:

- Isso tudo em Brasília... Professor, o senhor sabe, isso é briga deles. Nós, que saímos às cinco da manhã de casa e voltamos às onze da noite, ano após ano, vamos continuar nos fodendo. Política é isso aí, eles roubam e fodem o povo.

Escuto. Sinto. Preocupo-me em duas frentes. Primeiro, com o projeto de governo que vem aí, e que não venceu eleições. Chegou ao poder através de um rito aparentemente legal, mas com conteúdo muito discutível - para dizer o mínimo. Um projeto de desmonte dos direitos trabalhistas, de repressão e autoritarismo, de congelamento nos investimentos em saúde e educação, de privatizações a todo custo e onde quer que seja. Um projeto de poder que, tudo indica, não vai largar o osso com rapidez. Um projeto que de democrático só tem a propaganda de si próprio.

No fundo, preocupa mais ainda o que aprendi com as lições do professor Luiz Eduardo Soares, ainda nos protestos de 2013: se trocamos uma crítica política da situação que vivemos, por uma crítica generalizada à política em si, o abismo chega cada vez mais perto. Aqueles que observam “bestializados”, conforme expressão do professor José Murilo de Carvalho, às oligarquias que se engalfinham pelo poder institucional, cada vez mais parecem desacreditar a política enquanto negociação e organização da vida coletiva. Aí mora o risco de adesão total e irrestrita a messiânicos autoritários e pretensamente apolíticos.

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