SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

América do Sul, Brasil,
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sábado, 15 de outubro de 2016

Professor, entre idas e vindas

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Entre idas e vindas, mais um dia dos professores. Quando chega essa hora, sempre me pego a pensar: por que fazer isso, por que trabalhar com a docência? Tá cada vez mais difícil responder. O contexto não ajuda. Fala quem ocupa, atualmente, a posição de professor universitário, um privilégio entre os professores brasileiros. Só que a real é que nós estamos sob fogo cruzado, com níveis de pressão, ansiedades e angústias, na média, muito altos. Uns mais, outros menos.

Todos pedem educação. Porém, muito pouco é feito. Somos cobrados e nos cobramos pelos mais diferentes lados, por distintos matizes ideológicos. De um lado, a cobrança para ser vanguarda política, entre os estudantes e a comunidade mais engajada. Do outro, a cobrança para censurar o nosso pensamento, em projetos de parlamentares que nitidamente estão longe do cotidiano das instituições educacionais. Há, ainda, uma gama variada de outras cobranças e pressões diárias. Por produção, por resultados, desde uma lógica mecanicista de “fabricação” de conhecimento e ensino, o gerenciamento de mercado na esfera educacional.

É claro que não são só espinhos. O professor oscila entre um "operário" e um "artista" das ideias. Se é verdade o “peso” da atividade docente, a ele deve ser acrescida a “leveza” da prática pedagógica, da interação, da troca com os estudantes, da circulação de pensamento e saberes. Nem sempre isso ocorre, de fato, mas nas situações em que a docência faz sentido, seu significado ainda me enche de vontade de seguir tentando mais um pouco. Na universidade federal, o professor tem condições de lecionar, com tempo para pesquisa científica, extensão e gestão, ganhando experiência em âmbitos diversos da educação formal. Nem todos os cursos pelo país têm as melhores condições estruturais, existem muitas dificuldades, mas as federais são, em geral, as melhores universidades.

Ao invés de pegar como modelo o professor da rede federal e aperfeiçoá-lo, pensando em qualificar ainda mais esses profissionais, pensando em estruturar toda a docência nacional em torno de uma carreira que ofereça tempo para estudos, preparação, acesso a atividades e bens culturais, além de um bom salário e boas condições de trabalho, o que temos para hoje é um cenário devastador. As tímidas - mas fundamentais - conquistas da última década estão ameaçadas. Não bastasse a grande maioria de péssimos salários e péssimas condições de trabalho, ganha relevo a galera da irracionalidade que late e morde, da negação da busca pelo saber e pelo conhecimento. Essa galera que grita “comunista!”, justifica a humilhação que sofrem muitos professores através de argumentos “técnicos” ou “econômicos” tirados das suas bolhas nas redes sociais, sem deixar de sugerir, no fundo, que se tratam de profissionais preguiçosos, privilegiados que têm direitos demais.

Tá tenso, mas a gente segue. Fazendo pouco, miúdo, mas fazendo. Ainda gosto de lecionar e de escrever. Permaneço disposto a seguir procurando na educação alternativas para a barbárie entre nós, e entre nós e o mundo. Procurando uma forma de estimular o pensamento, abrir-se a ele, fomentando o conhecimento e, na mesma toada, uma vida mais justa, digna, livre, solidária, integrada e com oportunidades para todos. Isso cada vez mais me parece envolver um outro tipo de escola, um outro tipo de universidade, um outro tipo de relação de aprendizagem. No limite, um outro tipo de sociedade – que não é esse do aceleracionismo capitalista, quiçá do neoliberalismo ou do self made man.

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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Que tipo de República?

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Em 2018, a Constituição Brasileira em vigor completará 30 anos. Rasgada, amassada, assassinada, tornada fisiológica na vida prática. O Brasil parece que vive correndo atrás do próprio rabo. No dia 15 de julho de 1985, o saudoso professor Florestan Fernandes escrevia, na sua coluna em um jornalão desses oligopolizados, a respeito de qual seria o tipo de República que sairia da nova Constituinte e da transição “lenta, gradual e segura” pregada pelos militares. Quase três décadas depois, não deixa de ser impressionante a atualidade das suas considerações. 

“Os fatos mais clamorosos voltam a exigir definições claras, na teoria e na prática. Os coveiros da Independência e da República, os que tornaram impraticável qualquer forma precária e rudimentar de convívio cívico e democrático dentro da Nação, e através da Nação, retomam a linguagem do egoísmo cego e a ação desenvolta da violência dos que ‘tudo podem’. (...) São fatos que nos obrigam a abrir os olhos. Há uma guerra civil permanente e aberta em nossa sociedade civil. E é uma guerra sem quartel. Os privilegiados não abrem mão de nenhuma partícula de seus privilégios e brandem, por qualquer coisa, as armas brancas da degola e suas bandeiras ‘sagradas’, que põem a propriedade e a iniciativa privada acima de sua religião, de sua pátria e de sua família. (...) Sob a sua ótica, o que não coincidir com a intocabilidade da ordem estabelecida e todas as suas iniquidades é ‘comunismo’ e precisa ser banido de nossa terra! (...) A República teria de ser uma república de senhores, uma oligarquia perfeita, movida por interesses particulares absolutos e pela ideia de que o único ‘bem comum’ válido emana do comensalismo agressivo, secretado por aqueles interesses particulares” [1].

O título da esquecida obra de Florestan, que condensa os seus textos no jornalão oligopolizado, às vésperas da Constituinte de 1988, faz lembrar o que diz o filósofo grego Aristóteles sobre a justiça. Se decisões sobre justiça devem ser precedidas pelo debate acerca do objetivo das instituições sociais e sobre as qualidades dignas de valorização e reconhecimento, a pergunta do grande sociólogo brasileiro persiste: “Que tipo de República?”.

Referência

[1] FERNANDES, Florestan. Que tipo de República? São Paulo: Brasiliense, 1986. Páginas 75-76.

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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Max Weber, classes e situação de classe


As "classes" não são comunidades no sentido aqui adotado, mas representam apenas fundamentos possíveis (e freqüentes) de uma ação social. Falamos de uma "classe" quando 1) uma pluralidade de pessoas tem em comum um componente causal específico de suas oportunidades de vida, na medida em que 2) este componente está representado, exclusivamente, por interesses econômicos, de posse de bens e aquisitivos, e isto 3) em condições determinadas pelo mercado de bens ou de trabalho ("situação de classe"). É o fato econômico mais elementar que o modo como está distribuído o poder de disposição sobre a propriedade material, dentro de uma pluralidade de pessoas que se encontram e competem no mercado visando à troca, cria já por si mesmo oportunidades de vida específicas. Segundo a lei da utilidade marginal, exclui os não-possuidores da participação na concorrência quando se trata de bens de alto valor, em favor dos possuidores, e monopoliza para estes, de fato, a aquisição desses bens. Abarca, em circunstâncias de resto iguais, as oportunidades lucrativas na troca para todos aqueles que, abastecidos de bens, não dependem, sem mais, da troca e aumenta, pelo menos em geral, seu poder na luta de preços contra aqueles que, sem propriedade, não podem oferecer nada além de seus serviços em forma de trabalho ou de produtos do trabalho próprio e estão obrigados a vendê-los a qualquer preço, para garantir a mera existência. Monopoliza para os possuidores a possibilidade de transferir a propriedade da esfera do aproveitamento como "patrimônio" para a esfera do emprego como "capital" - isto é, a função de empresário e todas as oportunidades de participação direta ou indireta no lucro do capital. Tudo isso ocorre dentro da esfera de vigência das puras condições de mercado. A "propriedade" e a "falta de propriedade" são, portanto, as categorias fundamentais de todas as situações de classe, quer se efetivem na luta de preços, quer na luta de concorrência. Dentro destas últimas, as situações de classe diferenciam-se conforme a natureza da propriedade aproveitável para fins aquisitivos, por um lado, e dos serviços que podem ser oferecidos no mercado, por outro. A propriedade de edifícios habitacionais, a de oficinas, armazéns ou lojas, a de terras aproveitáveis para a agricultura e, dentro desta, a propriedade grande ou pequena (diferença quantitativa que eventualmente traz conseqüências qualitativas), a propriedade de minas, gado, pessoas (escravos), o poder de disposição sobre instrumentos de produção móveis e meios de aquisição de todas as espécies, sobretudo dinheiro ou objetos que, com facilidade específica, podem ser convertidos a cada momento em dinheiro, sobre produtos de trabalho próprio ou alheio, diferente segundo o grau em que o produto está pronto para o consumo, sobre monopólios de qualquer espécie - todos estes fatores variados diferenciam as situações de classe dos possuidores, do mesmo modo que o "sentido" que dão e podem dar ao aproveitamento de sua propriedade, sobretudo a propriedade que vale dinheiro, isto é, conforme pertençam, por exemplo, à classe dos rentistas ou à dos empresários. E do mesmo modo diferenciam-se consideravelmente entre si os agentes, sem haveres da oferta de serviços, conforme as diferenças entre estes serviços e também conforme o modo de convertê-los em ganhos, seja numa relação contínua com o mesmo comprador, seja caso por caso. Mas sempre vale para o conceito de classe que a oportunidade no mercado é o condicionador comum do destino dos indivíduos. Nesse sentido, a "situação de classe" significa, em última instância, a "situação no mercado". Constitui apenas uma fase preliminar da autêntica formação de "classes" aquele efeito da propriedade sem mais, puramente como tal, que, entre os povos criadores de gado, sujeita o não-possuidor, como escravo ou servo, ao poder do proprietário de gado. Mas, certamente, surge nesse caso, no empréstimo de gado e na crueza do direito de dívidas dessas comunidades, pela primeira vez, a mera "propriedade", como tal, como determinante do destino do indivíduo, em forte contraste com as comunidades agrárias baseadas no trabalho. A relação credor-devedor tornou-se um fundamento de "situações de classe" somente nas cidades, onde se desenvolveu um "mercado de crédito" - ainda que muito primitivo - com taxas de juros, que aumentavam de acordo com a necessidade, e com uma monopolização efetiva dos empréstimos por parte de uma plutocracia. Com isso, iniciam-se as "lutas de classes". Por outro lado, uma pluralidade de pessoas - cujo destino não está determinado pela oportunidade de uma valorização própria de bens ou trabalho no mercado, como, por exemplo, os escravos - não constitui, no sentido técnico, uma "classe" (mas um "estamento").

WEBER, Max. Economia e Sociedade: volume 2. São Paulo: Editora da UNB, 2004. Páginas 176-77.
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