SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Eleições Rio-Sampa 2016

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Das muitas reflexões possíveis sobre as eleições municipais, algumas coisas vão se tornando mais claras. O PT perdeu bastante espaço. Os demais partidos tradicionais, também afetados até o talo por escândalos de corrupção, não tiveram perdas significativas. Há muitas coisas a se pensar sobre isso, e a reconstrução do campo da esquerda é uma delas. Porém, os dois aspectos que quero destacar dizem respeito ao segundo turno no Rio de Janeiro, com a presença de Marcelo Freixo, e à vitória avassaladora do PSDB em São Paulo.

No Rio, eu sou Freixo desde sempre. Na minha visão, Marcelo Freixo condensa boa parte do sentimento que esteve presente nas explosões de rua de 2013, pelo lado da esquerda não-petista, de uma juventude que busca reinventar a democracia, com protagonismo e horizontalidade. Freixo enfrenta há muitos anos as milícias cariocas, responsáveis por impor o terror em comunidades pobres e articular seus negócios através de parlamentares, empresários e muita violência e corrupção. O candidato do Psol é um homem muito inteligente e articulado, que certamente tem seus defeitos, mas que, nesse momento, surge como um canal qualitativo de representatividade na disputa institucional. Penso que aqueles que defendem o aprofundamento da democracia, com respeito aos direitos humanos, proteção social aos trabalhadores e exercício pleno de liberdades democráticas devem fechar em torno da candidatura de Marcelo Freixo.

Em Sampa, a vitória lacradora do PSDB, que disputou a eleição contra um dos melhores quadros do PT na atualidade, indica uma vitória da anti-política, uma vitória da construção com sucesso da imagem de um candidato que seria um “gerente” ou “administrador”, como se isso fosse sinônimo de ética e eficiência. A anti-política aposta numa espécie de “tecnocracia”, aposta em vender a ideia de que fazer política é ruim e, por isso, precisamos botar um empresário-gestor para cuidar da coisa pública. Não vou questionar se a trajetória do candidato do PSDB atende realmente a esses requisitos, somente sugiro a todos que façam uma pesquisa atenta sobre a candidatura eleita. A estratégia parece ser a de negar a atividade política e tratá-la como uma atividade vazia de valoração, o que é um engodo evidente, mas que ganha adesão maciça em momentos de crise das instituições e da representatividade política.

O caldo disso tudo ainda está no fogo. Para Freixo enfrentar o seu rival no segundo turno, precisará botar o pé nas favelas de uma vez por todas e convencer o eleitorado mais pobre (sobretudo da zona norte e oeste do RJ) de que tem soluções para a cidade. Não poderá tratar todos os evangélicos como inimigos, pois isso seria absurdo em qualquer situação, e porque a base social da IURD é muito mais consolidada do que a do Psol. Em Sampa, por outro lado, pode estar surgindo o projeto de poder que governará o país no médio prazo. A vitória de Marcelo Freixo, no Rio, pode encaminhar uma alternativa prática a isso.

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