SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Lutas sociais, moralidade moderna e aceleracionismo capitalista


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O que está acontecendo? Ofensiva conservadora? A volta dos que nunca foram? O reinado da intolerância? Imbecilização do planeta? The winter is coming? Não tem como dar uma resposta fechada, mas dá pra tentar arriscar algumas míopes considerações.

Primeiro, cabe tentar definir em que tipo de sociedade estamos vivendo. Somos frutos de um processo histórico de modernização a partir da Europa. Isso consagrou a hegemonia da modernidade capitalista como forma de organizar a vida em sociedade. Dessa forma, vivemos diariamente lutas sociais intransparentes, travestidas de normalidade. É como se as coisas fossem naturalmente do jeito que são, e os conflitos fossem consequências de pessoas ruins que não querem se tornar boas pessoas.

Ora, as lutas sociais, ainda que opacas, seguem existindo, e vão além da nossa individualidade – apesar de perpassá-la por meio de disposições, esquemas de ação e percepção que nos orientam. São lutas sociais pelo acesso aos bens e recursos escassos, aos espaços de poder. São lutas sociais materiais, que se traduzem simbolicamente em lutas de classificação e desclassificação. Tais lutas passam despercebidas, por vezes, em função do arquétipo da moralidade moderna dominante, da forma como entendemos o que é o certo e o que é o errado.

A igualdade é vista como correta somente à medida que cria artifícios de regramentos para que cada um possa exercer a sua individualidade e recolher os méritos pelas suas conquistas. Mas, para isso, valoriza-se a autenticidade, a distinção que nos faz ser notados, a cereja do bolo de cada um. Em paralelo, cobra-se de todos o exercício da dignidade, desenhado na ética do trabalho produtivo, no pensamento prospectivo e no autocontrole, além de uma economia moral calculista (uma torpe adesão a uma torta razão instrumental). Daí temos a base da autoestima individual e do reconhecimento social.

Só que as lutas sociais pelos bens e recursos escassos não geraram, sobretudo na era da desregulamentação financeira, na era do Rei Mercado Livre, condições razoáveis de coexistência entre os diferentes grupos humanos. Classes sociais ainda existem, e ocupam lugares dessemelhantes no espaço social, desde os capitais que possuem. A posse e a capacidade de mobilização de diferentes capitais (“trunfos”/recursos econômicos, culturais, de redes de relacionamento ou prestígio) seguem extremamente desiguais, e a interseccionalidade das desigualdades joga mais gasolina nessa fogueira.

Num mundo com lutas sociais intransparentes, feito de acessos desiguais aos “objetos” dos desejos que nos conformam, com a valoração psicoemocional descrita acima, o desprezo pelo outro, por aquele que não venceu ou não incorporou ou desafia o “espírito” do capitalismo, acaba aparentando uma resposta plausível. Afinal, o outro que propõe uma coexistência mais harmônica, com oportunidades mais igualitárias ou outras formas de vivência na Terra, passa a ser interpretado como o responsável pelos desajustes da vida coletiva e pelas condições precárias em que vive a maioria. O jogo não é o problema; o problema são os desafiantes.

Talvez por isso, o sucesso dos bufões que apontam para as feministas, a comunidade LGBT, os movimentos sociais, as populações tradicionais, enfim, todos aqueles que desafiam a ordem em ruínas, esteja presente com tanta força no momento. Nesse contexto, há ainda outro ponto a se pensar. O “espírito” das relações sociais capitalistas da “sociedade da informação” pode estar em mutação. Se olharmos com atenção, os ditames do futuro-presente nos indicam uma espécie de "aceleracionismo capitalista". Quer dizer, não bastaria mais os pressupostos morais e as disposições ajustadas para as lutas sociais, a fim de concentrar capitais e reproduzir a vida em sociedade. A demanda parece ser a de acelerar ainda mais a corrida por recursos, poder e reconhecimento.

Como? Se as “tempestades de estímulos” que nos fulminam em dispositivos como smartphones e tablets dão o tom simbólico das classificações e desclassificações tipo minuto a minuto, as relações de trabalho “flexíveis” modulam um possível novo espírito do capitalismo, uma coisa na linha “trabalho 24/7”, isto é, 24 horas por dia e sete dias por semana. “Não pense, trabalhe!” vira o lema perfeito. Pensar, questionar, contestar, fortalecer contraculturas distintas, nada disso colabora com a aceleração capitalista, não colabora com o consumo desenfreado feito simulacro de uma felicidade vazia, na medida em que pressiona pela retirada das suas urgências tidas como naturais e nos coloca num compasso de reflexão e reconstrução de outras vivências e outras urgências, ultrapassando uma sociedade de mercado.

Finalmente, não dá pra saber ao certo o que vai acontecer. O poder institucional tende a ser ocupado, via democracia eleitoral, pelos representantes da radicalização liberal-conservadora, os apologistas da normalidade e da naturalidade do mundo. Liberal na retórica, pois elege a “liberdade” do indivíduo como ponta de lança, mas a aplica apenas à legitimação e reprodução da ordem vigente; conservadora porque atenta contra o outro-diferente, seja ele o maconheiro, o homossexual ou a mulher protagonista. É justamente por isso que as ocupações são importantes e interessantes, enquanto resistência: elas tentam forçar a interrupção de uma normalidade tão fictícia quanto nociva, e propõem a reflexão, a horizontalidade política e a valorização de outros mundos como perspectivas práticas.

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