SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
PÁGINA INICIAL LEIA ANTES! SOBRE O EDITOR TEXTOS DO EDITOR BIBLIOTECA MATERIAIS DE AULAS

sábado, 3 de dezembro de 2016

Contra a corrupção

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O atual sistema político apanha de todos os lados. Desde o impeachment-golpe, a esquerda tem tomado as ruas. Em todos os atos que estive presente, deu pra notar, no mínimo, uma diferença entre aqueles que pedem a volta do PT e os defensores de eleições gerais imediatas. Mais recentemente, a possibilidade de congelamento dos gastos da União por duas décadas abrandou as diferenças.

Hoje, o sistema político está em frangalhos. No próximo domingo, os movimentos que canalizaram as ruas contra o PT, meses atrás, estarão nas ruas outra vez. Mesmo com notícias de divergências entre os grupos organizadores, são esperadas milhares e milhares de pessoas nas manifestações. 

O mote dos protestos de domingo é a corrupção. Cresci vendo a esquerda dar porrada na corrupção. Hoje, contudo, em função de mil fatores, a pauta de combate à corrupção é entendida por parte da esquerda como subterfúgio da direita fascista para encher as ruas e defender suas bizarrices ultraconservadoras. Isso não deixa de ser verdade, mas aí parece residir uma armadilha complicada, algo que pode ajudar a explicar a dificuldade da esquerda em dialogar com a população em geral.

Ora, se está surgindo a brecha para desestabilizar de uma vez por todas um sistema político que não dá nenhum sinal de garantir os direitos e trabalhar para melhorar a vida da maioria dos brasileiros, não seria a hora de participar (à esquerda, por óbvio) da panela de pressão? Não se abre uma chance interessante para buscar barrar a PEC 55 e as anomalias do governo do RS, por exemplo? Tática e estratégia não seriam as palavras da vez?

Não tenho respostas e tampouco sou linha de frente no engajamento político. Entretanto, a melancolia que se abateu sobre muitos de nós parece um grave estado paralisante, bem como o reforço ao imaginário de que o PT ainda é a força motriz da esquerda - mesmo que todos os dias a prática desminta a "imagem". Fica difícil defender o PT e criticar a corrupção, nesse momento.

É claro que não é simples somar pautas de direitos e mais democracia em atos tomados por pedidos de intervenção militar e selfies com as forças de repressão. Mas o que não se pode perder de vista é que o mote da corrupção mobiliza muitos "cidadãos médios", que não necessariamente se alinham com a direita*. Há uma multidão insatisfeita, e o pior dos cenários é ver essa massa guiada somente pelos movimentos autoritários e ignóbeis. Se os que estão pela redução das desigualdades e pelos direitos democráticos não encontrarem uma via de aproximação com essa insatisfação, tudo indica que o futuro próximo nos reservará mais desigualdade e autoritarismo.

* Uma pesquisa em São Paulo mostrou questões relevantes sobre valores e concepções políticas da população em geral. Vale uma olhada atenta: http://gpopai.usp.br/pesquisa/relatorio.html

.