SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

"Estadofobia" x "Estadolatria"

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A “Estadofobia” de boa parte dos governantes atuais e dos meios de comunicação de massa, na verdade, esconde uma “Estadolatria” indiscutível. O mantra de reduzir e reduzir e reduzir o Estado, a qualquer preço, mascara uma visão de Estado que, na prática, prevê um Estado bastante forte e atuante.

Ora, os governos atuais pretendem reduzir o lado mais “democrático” do Estado, o seu “braço esquerdo”. Ciência, educação, saúde, cultura, meio ambiente e outras pautas que foram incorporadas pelo poder público através de muita luta popular, sobretudo durante o século XX, na busca por expandir para toda a população os serviços básicos que conformam a dignidade humana, passam a ser descartáveis e direcionadas para o mercado - e, portanto, acessíveis para quem puder pagar.

Por outro lado, o monopólio da violência física, dos instrumentos de “justiça” e da máquina administrativa responsável por recolher os tributos da população, em geral, pouco ou nada entram no debate. De fato, por vezes, policiais também acabam pagando o pato da austeridade-para-alguns, tão na moda neste mar de lama chamado 2016. Ainda assim, repressão pesada, vigilância e coerção não correm riscos quando chega a tesoura do pessoal da teoria econômica ortodoxa. Auxílio-moradia a juízes, privilégios de desembargadores, isenções fiscais às grandes corporações, enfim, nada disso importa.

Forja-se uma “Estadofobia” para alguns, ou melhor, para as funções que ajudam a ampliar os horizontes da sociedade, ajudam a estimular a emancipação humana, e uma “Estadolatria” para a regulação e o controle, para o embrutecimento e a segurança das grandes propriedades. Nessa toada, a “Estadofobia”, por incrível que pareça, sequer propõe a garantia legal e real de direitos individuais contra o poder do Estado. Segue o Estado controlando o casamento das pessoas, as substâncias que elas utilizam, suas gestações e, não é de se duvidar para o futuro-presente próximo, o que as pessoas pensam e falam.

A “Estadofobia” de hoje fomenta o inverso daquilo que poderia equilibrar as oportunidades de uma vida digna, considerando o complicado contexto das modernas sociedades capitalistas. Em vez de (a) garantir as liberdades individuais, retirando-se de um jogo que não é seu (b) regular os conflitos entre capital e trabalho, dando suporte para a imensa massa de trabalhadores não ficar a mercê somente dos interesses das oligarquias e grandes corporações (c) incentivando a ciência, o micro, o pequeno e o médio empreendedor, a cultura, o cooperativismo, projetos sustentáveis e educação e saúde para todos, é exatamente o oposto que vira a “solução mágica” a ser aplicada goela abaixo.

Desse jeito, logo estaremos diante de uma “Estadolatria” às avessas dos ideais democráticos, pelo menos os mais utópicos: um Estado cada vez mais regulador, controlador, vigilante, repressor e cobrador de impostos. O resto o mercado absorverá e quem não puder pagar que se vire. A democracia, sobrevivendo por aparelhos, parece só precisar de um empurrão para ir às cucuias de uma vez por todas, em pleno século XXI.

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