SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Entre o patrimonialismo e as teorias críticas


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Lista atrás de lista, a política brasileira entra em acelerada decomposição. Ficam cada vez mais claras as relações promíscuas entre Estado e mercado. Políticos e agentes públicos recebem propina, investem em campanhas eleitorais, são reeleitos e articulam os interesses das empresas pagadoras, em pleno Congresso Nacional. Há, pelo menos, duas vias para explicar essa promiscuidade a partir da Sociologia: as teses patrimonialistas e as teorias críticas.

As teses patrimonialistas depositam sobre os políticos e os agentes públicos a responsabilidade pelos principais problemas sociais. Ocorre a apropriação do Estado por pessoas e grupos privados, num processo histórico que conforma uma espécie de “estamento”. O estamento manipula as dinâmicas políticas e chantageia os empresários e a sociedade civil, fazendo da corrupção uma prática intrínseca ao poder público. Nessa ótica, o mercado pode ser visto como o espaço da virtude, do trabalho produtivo e da dignidade, enquanto o Estado representa os privilégios e a ineficiência. Resta, portanto, a tarefa de modernizar o Estado, instituindo uma ordem burguesa até então sufocada pela burocracia estamental. Para isso, é preciso diminuir o tamanho do Estado e adotar a racionalidade da gestão empresarial, afastando, assim, a degradação da esfera política.

Já as teorias críticas entendem que, nas modernas formações sociais capitalistas, o Estado é apropriado pelas classes abastadas, a fim de que a política seja a representação dos seus interesses. Porém, isso é reflexo de uma relação mais ampla, o conflito entre classes sociais, marcado pelo conflito entre o capital e o trabalho. Mais recentemente, tem se observado que tais conflitos são atravessados por uma gramática moral, própria à modernidade, pela qual são invisibilizadas, justificadas e legitimadas as desigualdades sociais. Se as pessoas não se dedicam, não se esforçam e não possuem uma ética do trabalho produtivo acima de tudo, não são merecedoras de uma vida digna. Essa ideia não permite que se compreenda os mecanismos de reprodução dos privilégios injustos das classes dominantes, oriundos de uma sociedade que não oferece as mesmas chances para todos de acesso ao capital econômico e cultural, recursos determinantes para uma boa vida.

Parando de procurar a pureza de ambas as abordagens, podemos encontrar pontos de conexão entre elas. Dessa forma, penso que se pode desenvolver uma leitura mais fidedigna da modernização em países periféricos do capitalismo global, como o Brasil. Talvez esteja no tratamento sociológico rigoroso das possibilidades de contato entre as teses patrimonialistas e as teorias críticas o caminho para entender melhor o nosso país. Acontece que, na vida prática, cotidiana, os movimentos da política parecem apontar para a vitória eleitoral, ali na frente, do pensamento gerencialista que enxerga no mercado o reino de todas as maravilhas. Com isso, do Estado pode sobrar somente a repressão e a cobrança de impostos, fazendo da cidadania e da busca por uma sociedade mais harmônica algo totalmente inviável.

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