SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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segunda-feira, 26 de junho de 2017

A obediência e a "banalidade do mal"


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Toda segunda-feira é a mesma coisa: recomeçamos nossas rotinas de trabalho. Não é raro o desânimo, a sensação de que estamos jogando a vida fora, que a recompensa é pequena, seja pela grana, reconhecimento, satisfação, etc. Por mais que os “catálogos de sorrisos” expostos nas redes sociais disfarcem um pouco, é difícil encontrar algum trabalhador que não tenha sentido isso uma vez ao menos. Vários, inclusive, já se perguntaram: por que seguir obedecendo ao ritmo desse tipo de vida?

Na Sociologia, temos algumas pistas. Podemos pensar que a exploração do trabalho em sociedades capitalistas faz com que os indivíduos da classe trabalhadora sigam trabalhando, para conseguir a sobrevivência. A ideologia dominante (dos dominantes) não permitiria que se enxergasse a exploração (Marx). Dá pra pensar que a dominação nessas formações sociais se relaciona ao exercício do poder, mas só é efetiva porque as pessoas legitimam a sua “servidão” (Weber). Ou, então, que essas relações são legitimadas pelas pessoas, mas não são consideradas relações de exploração e dominação, sendo tratadas como naturais (Bourdieu).

De qualquer forma, resta a pergunta: por que seguir obedecendo àquilo que não me faz bem? O filósofo Étienne de La Boétie diz que a responsabilidade trazida pela liberdade nos assusta. A "servidão voluntária" tenderia a ser um caminho menos instável e que inspira mais segurança. Na década de 1960, o psicólogo social Stanley Milgram foi mais longe. Ele passou a estudar o comportamento das pessoas em situações que exigiam obediência a uma autoridade reconhecida. Se alguém com autoridade ordenasse, as pessoas machucariam algum desconhecido? Se o desconhecido implorasse o fim das suas dores, mas a ordem fosse mantida, as pessoas seguiriam obedecendo?

Milgram foi, sem dúvidas, um dos mais polêmicos cientistas sociais do último século. Seus métodos experimentais desafiaram as concepções éticas da área e são realmente muito discutíveis. No entanto, os resultados da pesquisa são assustadores. Quando as pessoas foram confrontadas com a ordem de seguir punindo violentamente um desconhecido, mais de 60% foram até o final. A maioria não desobedeceu à autoridade e praticou a violência até o limite, sem qualquer razão sólida para isso, mesmo com a reação desesperada e os apelos do desconhecido. Recentemente, o experimento foi replicado e os resultados foram semelhantes.

Na mesma década de 1960, a filósofa Hannah Arendt refletia sobre a “banalidade do mal”, com base na cobertura jornalística do julgamento de um alto oficial nazista. Sob a firmeza das ordens de uma autoridade, as pessoas seriam capazes de realizar as mais atrozes práticas e, à noite, dormir tranquilamente sem sentir o peso de qualquer responsabilidade. Já Milgram dizia que a crescente divisão do trabalho poderia ter parte na percepção cada vez mais reduzida que possuímos acerca do todo. Sem entender as relações entre as ações, interações e estruturas sociais, a ausência de sentido nos traria medo, incerteza e a sensação de desencontro frequente. Para buscar “segurança” e “estabilidade”, nada seria mais eficaz do que obedecer e “tirar o corpo fora”.

Entre machucar alguém e seguir uma rotina degradante de vida e trabalho, de certo há uma boa distância. Porém, num mundo em que as lutas simbólicas operam classificando e desclassificando as pessoas em termos materiais e culturais, com uma parcela pequena concentrando privilégios variados, a insatisfação completa pode ser como gasolina no meio de um incêndio. O medo, a desilusão e as frustrações diversas parecem depender apenas de uma faísca para que despertem as nossas piores obediências – aquelas que banalizam o mal e não afetam o nosso sono.

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