SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 9

América do Sul, Brasil,
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segunda-feira, 31 de julho de 2017

Fim de ciclo: Doutor em Sociologia


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No dia 17 de julho de 2017, na UFRGS, defendi a minha tese de doutorado em Sociologia, intitulada “Classes sociais e desempenho educacional no Brasil”. Pouco antes do veredito final da banca examinadora, considerando o trabalho aprovado e me atribuindo o título de doutor em Sociologia, um filme de 12 anos e meio passou pela minha cabeça, da primeira aula na graduação ao desfecho da pós. Na verdade, esse filme vai mais longe. Lembrei o moleque introspectivo que via os pais estudando nas horas vagas do trabalho, batalhando tardiamente para completar um curso superior. Lembrei o adolescente envergonhado, para o qual a escola era um baita problema, e ao mesmo tempo o ponto de encontro diário com a única coisa que fazia sentido: os amigos. Lembrei o jovem adulto que se dava conta de que o Jornalismo não era a sua praia, mas que dali poderia tirar bons ensinamentos. Lembrei o dia em que passei no vestibular para uma universidade federal, um sonho que jamais havia sonhado. Lembrei o jovem adulto encantado com as Ciências Sociais, lendo texto atrás de texto, juntando trocados para comprar livros e sedento pelas pesquisas e teorias que se lhe apresentavam. Lembrei o meu primeiro dia de aula como professor, na querida Barra do Ribeiro, completamente inseguro, mas cheio de vontade de fazer acontecer. Lembrei a proposta da minha querida orientadora, Prof. Dra. Marília Patta Ramos, na época em que entrei no mestrado, com o desafio de me dedicar a uma formação metodológica rigorosa. Lembrei muitas outras coisas. As alegrias. O amor. As festas. Os colegas. Os bons professores. Algumas aulas. Os amigos. A galera nada a ver. Os almoços e jantas no RU. As tristezas e sofrimentos. O antigo prédio de aulas do IFCH, assaltado pelo imperialismo da Letras. A antiga Toca e os embates no Fla-Flu. O CV. O Gnomos e a Estufa. A Hora Feliz. Cheguei até a lembrar das Catacumbas! Diante de tantas lembranças, diante do encerramento de um longo ciclo de 12 anos e meio, naqueles corredores do Campus do Vale, naquele lugar em que vivi tantas emoções e cresci tanto, fui me dando conta de que foi ali mesmo que comecei a gostar de estudar. Isso pode não ser tudo, mas para mim foi um divisor de águas, transformou a minha vida. E é por isso que continuo acreditando que a educação pública, gratuita e de qualidade não pode ser um privilégio para meia dúzia. A UFRGS vai me deixar saudades, mas a luta continua para que muitos outros e outras tenham acesso a oportunidades que possam transformar vidas.

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