SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Não há de ser inutilmente

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

De férias, alegre, vinha pedalando e cantando “O bêbado e a equilibrista”. O rapaz destoava de todo o resto ao seu redor. Quietos, sisudos e fechados, todos naquela esquina mais pareciam máquinas. Absortos pelo trabalho, ninguém dava a mínima, mas vários estranhavam a tal cantoria.

Durante todo o ano, o cantor de fim de tarde também ignorara as vicissitudes do cotidiano, mergulhado que estivera no trabalho. Mas, agora, cantava. Cantava e pensava, sem pestanejar: isso as leis de mercado ainda não pegaram. Naquela cantoria pedalante, não haveria quaisquer relações de troca, não haveria transação comercial.

Assim algumas coisas deviam estar e ser: alheias aos negócios, distantes das atividades de compra e venda. Não é que a economia de mercado, nos moldes de uma sociedade capitalista, não possa ser um instrumento eficiente, se regulado, para a alocação de recursos e incentivo à inovação tecnológica.

Ocorre que um “instrumento” não pode se transformar na lógica de organização de uma coletividade. Em outras palavras, uma “economia de mercado” não pode virar uma “sociedade de mercado”. No país símbolo do capitalismo, hoje uma sociedade de mercado, conta o filósofo Michael Sandel, professor de Harvard, guardar um lugar numa fila demorada pode significar um bom negócio.

Na terra do “tempo é dinheiro”, há casos em que o incentivo à leitura entre estudantes está relacionado a recompensas financeiras. Quanto mais livros lidos, mais dólares são recebidos pelos jovens. Por óbvio, a prioridade se torna ler livros menores, e engordar a carteira. É por isso que devemos gostar de ler?

Uma sociedade de mercado pode modificar os valores morais de bens imateriais (como a aprendizagem, por exemplo) e o significado de práticas sociais. Num contexto de aumento das desigualdades, ricos e pobres tendem a viver vidas cada vez mais separadas, frequentando lugares muito diferentes, criando seus filhos de maneiras e com condições muito distantes.

Isso não é nada bom para a democracia. A democracia não requer uma igualdade total, mas precisa que as pessoas compartilhem uma vida em comum. As pessoas de origens e condições dessemelhantes precisam, além de oportunidades para exercer sua liberdade e suas capacidades, contar com espaços em que possam compartilhar experiências comuns.

Sem esses espaços, com o fortalecimento dos “guetos” ideológicos tão presentes em tempos de redes sociais, traduzidos em condomínios fechados e grandes favelas, ficamos cada vez mais longe de conseguir negociar nossas diferenças. Tematizar as disparidades de poder e buscar o equilíbrio acaba em medo e guerra. Cuidar do bem comum vira uma tarefa quase impossível.

Quando abriu a sinaleira, o cantante seguiu seu rumo. Não sabia sobre o dia de amanhã – estava de férias. Esse direito ainda lhe cabia. O rapaz sabia, contudo, que uma dor assim pungente, como a que assolava os habitantes na megalópole, não haveria de ser inutilmente. E que a esperança equilibrista, mesmo dançando na corda bamba, de sombrinha, sabe que o show de todo artista, tem que continuar.

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