SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Tese de doutorado: "Classes sociais e desempenho educacional no Brasil"


Bernardo Caprara

Sociólogo e Professor

Há quase seis meses, defendi a minha tese de doutorado, intitulada "Classes sociais e desempenho educacional no Brasil", no PPG Sociologia da UFRGS. Para quem tiver interesse, divulgo agora o material completo. Logo a tese deve entrar no repositório online da universidade. Abaixo destaco o link para o PDF e um pequeno resumo do estudo, que recebeu voto de louvor da banca examinadora.


Meu objetivo foi analisar as relações entre as classes sociais e a educação formal básica no Brasil, examinando os efeitos da classe social no desempenho educacional dos jovens brasileiros. Dada a amplitude do objetivo, optei pela metodologia quantitativa, recorrendo à base de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), realizado em 2013. O Saeb avalia as proficiências dos estudantes em Matemática e Língua Portuguesa, de dois em dois anos, além de produzir questionários contextuais sobre as condições de vida dos alunos, sobre as condições da escolarização e de trabalho dos professores.

Do ponto de vista metodológico, utilizei as técnicas da estatística descritiva, da análise de correspondência, da análise de variância (ANOVA) e da regressão linear múltipla, sendo essa última o eixo principal das análises, com modelos para todo o Brasil e para cada região específica, contando com 269 mil casos no total (estudantes de todas as redes de ensino, do quinto e do nono ano do ensino fundamental e do terceiro ano do ensino médio, numa amostragem representativa). Como hipótese, considerei que a reprodução das desigualdades de classe passa pela educação formal, na medida em que a classe social afeta o desempenho escolar e, portanto, a escola não pode ser vista apenas como uma instituição "transformadora".

Na Sociologia, classes sociais podem ser definidas e pesquisadas de diferentes maneiras. Em linhas gerais, trata-se de uma categoria empregada para designar grupos sociais dotados de um aporte semelhante de recursos econômicos, seja na esfera da renda, do consumo ou da posição nas relações de produção material. Essa perspectiva econômica é perseguida por interpretações alternativas. Classes sociais podem ser pensadas, também, enquanto posições relativas no espaço social, marcadas pela posse de diferentes tipos de capital, cuja mediação com as práticas culturais e os estilos de vida reside em disposições incorporadas desde a infância.

Dessa forma, operacionalizei o conceito de classe de duas maneiras distintas: primeiro, a partir da construção de estratos de posse de bens de consumo, numa abordagem econômica, hierarquizando os estratos do mais alto (“A”) ao mais vulnerável (“D/E”); depois, selecionei diferentes indicadores da posse de capital econômico e de capital cultural, os dois principais capitais nas sociedades modernas, conforme a teoria do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Os resultados empíricos demonstraram a persistência dos efeitos da classe social na conformação dos rendimentos acadêmicos, ainda que coexistindo com os impactos das variáveis de escolarização, de trajetória individual e de caráter pedagógico.

Por fim, refleti sobre as possibilidades teóricas na busca por compreender como a escola atua entre a reprodução das desigualdades de classe e a produção cultural ou a transmissão de saberes. Para isso, mobilizei outros estudos, de cunho qualitativo, bem como incursões teóricas capazes de indicar os caminhos da incorporação das disposições de classe por parte dos alunos, mas, também, ajudar a pensar essas disposições como múltiplas e abertas, dando mais espaço para o "voluntarismo" da ação humana.