SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

América do Sul, Brasil,
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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Meritocracias ao avesso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

À frente, centenas de pessoas descem do trem. É cedo, rua bombando.

À direita, no trânsito, o homem de 40 e poucos anos fala ao celular:

- Pode passar a SUV pra outro... meu guri tá indo pra Inglaterra, não vai mais ficar com a nave.

À esquerda, debaixo do viaduto, uma família faz o fogo de chão pro café da manhã.

O homem à direita segue ao telefone. Sinal fechado. Ele dá risada:

- Porra, irmão! O guri fez o melhor colégio, melhor cursinho e tudo mais. Mas não passou. Essa banda na Europa é pra amenizar o baque.

À sombra do viaduto, toalha perfeitamente esticada sobre a mesa improvisada, talheres, pratos e copos sortidos, duas fatias de pão e um café preto aguado. Quatro pessoas pra comer. Duas crianças lavam o rosto e os dentes, sob o olhar atento dos pais.

Atrás, dois vizinhos comentam a chegada da família ao viaduto.

- Falei com eles ontem. Ele tem curso superior, mas não consegue emprego. Há um ano eles viviam dos bicos de ambos. Até isso rareou. Pode ver, ali tá tudo caprichado, com esmero. Tudo limpo, dentro do possível naquelas condições. Olha a barba super bem feita dele.

Aberto o sinal, o pai do garoto viajante arrancou sua Mercedez. Os vizinhos completaram:

- Viu esse que tava no telefone, falando do filho? Negou três vezes uma vaga pro cara na empresa dele. A mina, nem pra faxina ele aceitou.

- Ué, mas por quê?

- Disse que até tinham um currículo razoável, mas que, morando na rua, só podiam ser vagabundos, gente que não se esforça.

Brasil, século XXI. Meritocracias ao avesso. Vida aviltante - ao cubo.

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terça-feira, 10 de abril de 2018

O perigo da pós-verdade

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Uma das coisas mais preocupantes no tempo presente e no futuro próximo é a avalanche de notícias e informações falsas chegando para cada um de nós, por meio de várias plataformas. Se com a falsificação de textos e imagens uma parcela enorme da sociedade já tem dificuldades de distinguir o que é verdade e o que é mentira, quando se popularizar a manipulação de vídeos e áudios nós estaremos, literalmente, mais que perdidos. Isso já tá rolando, sob a alcunha de “deep fake news” (“falsificação profunda de notícias”, em tradução livre). 

Uma das loucuras nisso tudo é que a discussão sobre o “estatuto da verdade” já existe há muito tempo na Filosofia e nas Ciências Humanas. Entre as notícias que recebemos no cotidiano, em geral temos condições de distinguir o que é falso e o que não é. Em grande parte ainda é simples separar o joio do trigo. Já existem até sites e jornalistas fazendo isso. Ocorre que a noção de “fact check” (“checar os fatos”), esgaçada até o limite, não nos leva a um lugar conclusivo. É fácil questionar diversas conclusões dos “checadores de fatos” sobre determinados temas mais complexos, que envolvem maior subjetividade. A menos que se cheque absolutamente tudo (tarefa insana!), a própria seleção do que checar já denota alguma ausência e pode enviesar um debate.

No fundo, Jornalismo e Ciências Humanas estão diante da popularização de algo que atravessa os nossos fazeres profissionais há um bom tempo, que é a necessidade de estar sempre discutindo o que se entende por verdade. No Jornalismo, temos, sobretudo, a questão da imparcialidade. Nas Ciências Humanas, pra falar só de alguns caminhos, podemos pensar que a verdade é objetiva e basta pesquisá-la; que ela é objetiva, mas é preciso um trabalho de pesquisa metódico e sistemático; podemos pensar que só temos condições de conhecer uma parte dela, porque a verdade é carregada de subjetividades; ou, enfim, que o foco não deve estar na busca da verdade, mas somente nas subjetividades das relações humanas.

Nas últimas décadas, o distanciamento da comunidade científica e a seletividade ideológica dos meios de comunicação de massa ajudaram a pôr essas instituições sob a desconfiança de diferentes setores da sociedade. A essa altura do campeonato, com o mundo em chamas, parece que estamos à deriva, e que diferentes grupos disputam a direção de um barco que ninguém calcula pra onde vai. Nessa batalha, perdemos todos. Sem o mínimo de confiança nas mensagens que nos bombardeiam sem parar, em qual mentira vamos acreditar?

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Aristóteles, a ética e a técnica



"Se devemos a Sócrates o início da filosofia moral, devemos a Aristóteles a distinção entre saber teorético ou contemplativo e saber prático. O saber teorético ou contemplativo é o conhecimento de seres e fatos que existem e agem independentemente de nós e sem nossa intervenção ou interferência, isto é, de seres e fatos naturais e divinos. O saber prático é o conhecimento daquilo que só existe como consequência da nossa ação e, portanto, depende de nós. A ética e a política são um saber prático. O saber prático pode ser de dois tipos: práxis ou técnica.

Na práxis, o agente, a ação e a finalidade do agir são inseparáveis ou idênticos, pois o agente, o que ele faz e a finalidade da sua ação são o mesmo. Assim, por exemplo, dizer a verdade é uma virtude do agente, inseparável de sua fala verdadeira e de sua finalidade, que é proferir uma verdade; não podemos distinguir o falante, a fala e o conteúdo falado.

Na práxis ética, somos aquilo que fazemos e o que fazemos é a finalidade boa ou virtuosa. Ao contrário, na técnica, diz Aristóteles, o agente, a ação e a finalidade da ação são diferentes e estão separados, sendo independentes uns dos outros.

Um carpinteiro, por exemplo, ao fazer uma mesa, realiza uma ação técnica, mas ele próprio não é essa ação nem é a mesa produzida por ela. A técnica tem como finalidade a fabricação de alguma coisa diferente do agente (a mesa não é o carpinteiro, enquanto uma fala verdadeira é o ser do próprio falante que a diz) e da ação fabricadora (a ação técnica de fabricar a mesa implica o trabalho sobre a madeira com instrumentos apropriados, mas isso nada tem a ver com a finalidade da mesa, uma vez que o fim é determinado pelo uso e pelo usuário). Dessa maneira, Aristóteles distingue a ética e a técnica como práticas que diferem pelo modo de relação do agente com a ação e com a finalidade da ação".

Referência

CHAUI, Marilena. Introdução à Filosofia - Ensino Médio, volume único. São Paulo: Ática, 2010. Páginas 271-272.

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sexta-feira, 6 de abril de 2018

O velho Brasil

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O que motiva tanto ódio por um líder político em especial? No fundo, é o velho Brasil dando as caras. O ódio pelo ex-presidente operário, que leva as pessoas não só ao protesto, mas também às vias de fato, não se manifesta quando estão em jogo as denúncias contra o patrão gaúcho, o playboy mineiro, o mafioso carioca ou o bispo paulista. Denúncias graves, como ameaças de morte a um familiar para evitar delação, e com tanta ou mais materialidade do que as que existem contra o sindicalista nordestino. Panelas não batem pelas falcatruas deles.

Deméritos jurídicos à parte, a real é que o combustível desse ódio nunca foi a corrupção. Parece ter mais a ver com o nosso processo de modernização, seletivo, racista e violento, do que com um clamor por retidão moral. Somos um país arcaico, apenas seletivamente moderno. Nossas classes abastadas, com renda alta, patrimônio e escolaridade de ponta, não respeitam sequer o próprio liberalismo de Locke ou Smith, preferindo astrólogos de plantão ou financistas puro sangue. Não estão dispostas a pactuar pela redução do abismo social e racial, pois cultuam sua posição dominante, acham chique a distinção e desprezam os subalternos. Preferem mergulhar no esgoto ideológico, flertando com protofascistas, como aponta a grande adesão dessas classes ao candidato bufão e autoritário que temos por aí.

Em 2014, às vésperas da eleição, perguntei a um amigo muito querido, envolvido desde sempre com o agronegócio, por quais razões o setor alimentava tanto ódio ao ex-presidente e seu partido? O governo não trazia dinheiro e mais lucros pra eles? Eles não estavam enchendo os bolsos exportando cada vez mais carne, soja transgênica, laranja e tudo mais? Eles não são capitalistas? A resposta foi simples: é uma questão ideológica. Ou seja, é o nosso arcaísmo oligárquico mostrando as garras, arriscando suas cartas no acirramento dos conflitos políticos e sociais, seguro da sua dominação estilo Casa Grande.

Nada mais do que o velho Brasil. A Constituição Cidadã forjou a arquitetura de um país aproximado do ideário moderno de uma República Democrática. Muita gente deu a vida por isso. Mas, nesse imenso latifúndio, como nos demais do sul global, a modernidade veio sangrando colonialismo e escravidão. Sobrou uma sociedade cindida pela desigualdade racial e de classes, operando, em paralelo, numa pegada estamental. Nossos distintos doutores estão sempre dispostos a surrupiar as regras do jogo, se for pra manter intacta a concentração das riquezas de todos nas suas próprias mãos. Se acham merecedores de privilégios. Afinal, vestem togas ou ternos comprados em Miami. Ah, e odeiam "vagabundos".

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

A corrosão das instituições e a barbárie como gramática social no Brasil

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O buraco em que nos metemos nos últimos anos tem sido debatido à exaustão. Vários pontos importantes vêm sendo abordados por quem se coloca a pensar o que vem acontecendo. Dois pontos em especial têm me tomado as atenções nos últimos dias: a corrosão acelerada das nossas instituições e o avanço da barbárie como gramática legitimada da vida social.

Hoje, não há quem não critique as principais instituições da modernidade, aquelas que dizem respeito ao Estado, mas também ao mercado. No Brasil, o Estado costuma ser o centro das discussões. A ineficiência das suas instituições e a má conduta dos agentes institucionais (corrupção, por exemplo) não são novidade pra ninguém. Escolas, hospitais, parlamentos, judiciário e demais esferas institucionais são vistas como ineficazes e berços de privilégios, muitas vezes sem se fazer distinção entre os diferentes setores, seus orçamentos e a postura dos seus agentes.

Desde Marx, as críticas às instituições modernas se radicalizaram, a ponto de o Estado ser interpretado como um balcão de negócios das classes dominantes. Dessa visão se fortaleceu a análise de que as instituições da democracia liberal-representativa avançaram qualitativamente na comparação com as sociedades absolutistas, mas não deram conta de mitigar o conflito entre o capital e o trabalho, intrínseco à própria lógica das relações de produção capitalistas. As instituições estariam formatadas em prol da igualdade formal para todos, iguais perante as leis, conquanto não se tocasse nos alicerces que garantem a propriedade privada dos meios de produção. Assim, não se radicalizariam as medidas de redistribuição das riquezas materiais ou se democratizariam as relações de poder no âmbito do trabalho.

Se a força dos sindicatos e dos movimentos de trabalhadores foi a tônica das críticas às instituições durante a primeira metade do século passado, pelo menos desde maio de 1968 outras contestações vieram à tona. Não mais apenas a exploração do trabalho servia de base para iluminar as debilidades institucionais. A emergência das vozes silenciadas na arena sociopolítica, a partir das lutas pelos direitos das mulheres, dos negros e indígenas, dos homossexuais e transexuais, além de outras minorias de poder, ampliou o leque de investidas contra a institucionalidade moderna e desnudou as diversas dominações que ela não interditou.

No início do século atual, a perspectiva crítica às instituições ganhou corpo de tal modo que os fatores citados acima passaram a ser pensados em conjunto. Exploração de classe, dominação patriarcal, heteronormatividade e neocolonialismo, para me ater a esses termos, em alguma medida agora podem ser articulados na noção de interseccionalidade das desigualdades. Aí a briga para fazer com que as instituições da democracia liberal atendessem às demandas dessas populações segregadas ganhou fôlego e pressionou a sociedade como um todo, desestabilizando o pretenso equilíbrio normal das estruturas sociais e demonstrando sem máscaras a incapacidade institucional de atender a essas demandas.

Foi no século passado que alguns autores (como Adorno e Horkheimer) perceberam que o desencantamento do mundo assinalado por Weber vinha se transformando numa racionalidade dominante bastante nociva, isto é, a racionalidade instrumental da economia de mercado transbordava as molduras econômicas e atingia a subjetividade das relações humanas. Pouco a pouco, a mercantilização de tudo que nos importa foi tomando conta daquilo que chamamos de "razão", tendo como consequência uma enorme irracionalidade na organização da vida coletiva e na preservação da natureza, adicionando mais obstáculos ao bom funcionamento das instituições e fazendo da convivência entre as pessoas um faroeste marcado pelo poder de compra.

Então, em 2008, a explosão da bolha imobiliária, fruto dos empréstimos de alto risco e sem lastro, sobretudo no epicentro da modernidade avançada, os EUA, fez o mercado radicalizar as suas críticas às instituições que garantem (e garantiram também na crise do subprime) o seu próprio funcionamento. Só que essas críticas vieram pelo lado dos agentes dominantes, na medida em que apontavam para os "gastos exagerados" da sociedade em instituições públicas voltadas para a redistribuição de oportunidades, como escolas, hospitais ou aposentadorias. Na métrica da racionalidade indiscutível da era neoliberal, o privado é o reino da excelência e o público o vazio do "sem donos" ou da "improbidade administrativa". O braço direito do Estado, sobretudo o judiciário, cujos operadores do direito recebem altíssimos rendimentos pagos pelos nossos impostos, completamente retido pela narrativa gerencial das escolas jurídico-empresariais estadunidenses, parece fechar em uníssono em torno da reconfiguração completa das instituições sob a égide dessa racionalidade puramente instrumental.

Chegamos ao momento histórico em que a crítica às instituições da democracia liberal vem de todos os lados. Já não sabemos ao certo, quando ouvimos um amigo ou conhecido criticar um hospital ou o fisco, se a reclamação vem acompanhada de uma busca por fazer dessas instituições locais eficientes e justos, ou se vai trazer um sentimento de tamanho desencantamento que qualquer narrativa contestatória, inclusive as autoritárias ou elitistas, passem a fazer sentido e indicar possíveis bandeiras a serem hasteadas.

No limite, tudo que foi dito até aqui, dessa institucionalidade precária e conectada às diferentes desigualdades até a predominância da racionalidade instrumental, pode ajudar a entender o deslocamento evidente no cotidiano brasileiro das "soluções mediadas" dos nossos conflitos para a falsa solução da "ponta da faca". Se as instituições não funcionam ou funcionam muito mal, se a minha racionalidade orbita na dinâmica do gerenciamento individual, por quais motivos devo apostar minhas escassas fichas da sobrevivência num sistema que não me traz benefícios? De qualquer lado do espectro ideológico, essa postura parece ganhar respaldo nesses tempos de extrema turbulência e polarização.

O caminho para a guerra de todos contra todos ou para a adesão aos autoritarismos messiânicos é pavimentado pela banalização da despersonalização do outro, quer dizer, daquele ao qual eu identifico como o inimigo. Numa sociedade de mercado, movida por uma racionalidade gerencial e sustentada em instituições injustas/ineficientes, o inimigo tende a ser aquele que ameaça a propriedade privada, no "varejo" do cotidiano; no "atacado" das relações políticas, institucionais ou não, o inimigo pode ser associado, por tabela, àqueles que desafiam a propriedade privada dos meios de produção e propõem um governo em comum dos bens e serviços essenciais para uma sociedade livre, justa e fraterna, bem como a total afirmação das diversidades.

Por fim, nesse caldo de violência, ainda com traços coloniais (o racismo segue estrutural por aqui), o inimigo não é mais um time adversário que deve ser derrotado dentro das regras do jogo, mesmo que isso inclua reformatar essas regras: ele deve ser eliminado, trancafiado e, na cabeça de alguns, para deleite do sadismo que a despersonalização do outro faz aflorar, torturado física e simbolicamente. Quando o juiz é sempre ladrão e ninguém mais acredita que ele possa não ser, não se trabalha mais para fazê-lo justo e a pancadaria vira o mote para cada um dos jogadores. Daí, pode só restar o "salve-se quem puder".

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segunda-feira, 26 de março de 2018

Classe social influencia o desempenho escolar no Brasil? (Parte 1)

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor


Quais são os principais aspectos que afetam o sucesso ou o fracasso dos nossos estudantes na escola básica? A classe social em que eles se localizam importa para o seu desempenho educacional? Ter mais ou menos recursos econômicos e culturais produz efeitos nos rendimentos acadêmicos? Essas perguntas são a base da minha tese de doutorado. Pouco a pouco, quero divulgar alguns dos meus principais resultados, em pequenos textos, para tentar ajudar na compreensão da realidade educacional do nosso país¹.

Os resultados da pesquisa mostram que classe afeta desempenho escolar. Se pensarmos o espaço social como um espaço geométrico, os estudantes das classes sociais privilegiadas se localizam próximos das escolas de maior qualidade e das notas mais altas. São, em geral, pessoas de pele branca, que não precisam trabalhar/estagiar durante o período escolar, e possuem computador numa residência ampla. Nunca foram reprovados ou abandonaram a escola, e são incentivados em casa a estudar. Vimos que, também, conforme os alunos vão avançando na seriação escolar, encontramos uma verdadeira peneira de classe. Se os resultados em matemática e português vão melhorando conforme as transições realizadas pelos jovens (no 5º ano são piores do que no 9º do fundamental, e ambos piores do que no 3º ano do médio), vai “sobrando” na escola uma maioria de estudantes das classes mais altas.

Vejamos alguns números que expressam esses efeitos. Na “classe A”, em que se posicionam os alunos com maiores recursos econômicos na família, 29,1% tiraram notas altas em português e 29,6% em matemática. Na “classe D/E”, esse montante é de apenas 8,6% e 7,6%. Se observarmos as notas insatisfatórias, o cenário segue demonstrando a desigualdade de classe. Entre os mais privilegiados, 10,6% obtiveram notas muito baixas e 26,6% baixas em língua portuguesa (totalizando 37,2% de notas ruins), além de 9% e 25,4% (35,3% no total) em matemática. Entre os alunos mais pobres, o quadro é ainda mais assustador. Em língua portuguesa, 27,4% têm notas muito baixas e 38,3% notas baixas. Temos 65,7% dos estudantes com notas ruins em português. Já em matemática, são 27,1% e 40,2%, somando 67,3% dos discentes.

Fica claro que há um conjunto grande de estudantes com proficiências insatisfatórias nas duas pontas da hierarquia de classes, mas o abismo entre as classes se mostra um fator relevante nos resultados educacionais dos nossos jovens. Há ainda muitas outras evidências importantes, como as comparações entre as médias das diferentes classes e os efeitos diretos das diferentes variáveis na pontuação dos alunos, sem esquecer as nuances regionais. A produção de uma grande quantidade de evidências empíricas me parece o ponto alto da minha tese.  Em outros textos pretendo explorá-las. Quem sabe, assim, conseguimos olhar com mais atenção para nossos problemas educacionais.

¹ Não vou me ater aqui aos aspectos teóricos e metodológicos da tese. Cabe dizer que os dados incluem notas em matemática e português de uma amostra de 269 mil alunos brasileiros, do 5º e do 9º ano do ensino fundamental, assim como do 3º ano do ensino médio. Os dados são de 2013 e contemplam todas as redes de ensino (privadas e públicas) e todas as regiões brasileiras. Informações completas sobre a base de dados, o desenho da pesquisa, o referencial teórico, as técnicas estatísticas e a totalidade dos resultados empíricos podem ser acessadas em http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/172397.

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Roteiro para estudo e escrita em Sociologia


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Introdução

Antes de começar a fazer pesquisa sociológica, antes de botar a mão na massa, produzir, organizar ou selecionar e analisar dados empíricos à luz das teorias, o cientista social precisa ter uma capacidade razoável de leitura e produção textual. Como um pressuposto, o cientista social precisa conseguir absorver das leituras que faz, e que precisam ser muitas, os seus pontos principais e as articulações que eles sugerem. Isso acaba inapelavelmente passando por escrever sobre teorias, autores, conceitos, debates e etc.

Essa responsabilidade traz problemas. Primeiro, em função de que, salvo valiosas experiências no âmbito da educação formal, pouco se ensina “a estudar” aos nossos jovens. Medidas básicas de organização das atividades de estudo podem ajudar a fazer a coisa acontecer. Segundo, porque não costumamos nos sentir preparados para sair escrevendo, seja porque a vida acadêmica é altamente competitiva e feita de pressões diversas, seja porque temos dificuldade mesmo de botar para fora as ideias que fervilham nas nossas mentes.

A partir desse problema, elaborei um roteiro básico para minhas atividades de estudo e produção textual em Sociologia, uma parte relevante das minhas atividades profissionais, o que tem me ajudado a ler e escrever de maneira mais organizada. É obvio que essas dicas em forma de roteiro não se pretendem científicas, muito longe disso. Trata-se apenas de uma forma de organizar as atividades de estudo e escrita para interessados em Sociologia, buscando auxiliar a mim mesmo, nessas que são incumbências intrínsecas ao trabalho sociológico. Se para mais alguém isso for útil, será uma satisfação.

1 Dimensões e passos do roteiro proposto

O roteiro envolve três dimensões: (1) o contexto da temática em estudo; (2) a leitura dos textos da temática em estudo; (3) e a escrita sobre as leituras realizadas. São dimensões que se entrelaçam e, com o tempo, acabam certamente se confundindo. Por exemplo, um praticante que já tenha um acúmulo grande de leituras e textos escritos, já conheceu e versou sobre o contexto da temática, pode transitar com facilidade entre este ou aquele aspecto que pretenda dissertar, inclusive fundindo diferentes perspectivas e criando novos laços conceituais e teóricos. Se o estudioso fizer sempre, em todas as leituras e temáticas que se debruçar, essa espécie de artesanato sociológico, com o passar do tempo acumulará um grande acervo de textos próprios sobre muitos assuntos, autores e teorias, ampliando seus recursos de trabalho. Penso que essa lógica de estudo e produção textual vale para textos variados da Sociologia (metodológicos, teóricos, artigos científicos, teorias, etc.). Sugiro cinco passos básicos para operacionalizar este roteiro de estudo e escrita.

Primeiro passo – A contextualização

A primeira coisa a fazer é procurar algumas informações sobre o assunto/autor que se deseja estudar. Penso que sempre vale a pena começar pelas ideias gerais, pelas pessoas que comentam as grandes obras e grandes pesquisas. Isso significa começar por abordagens mais superficiais, sem dúvidas, mas justamente para abrir os caminhos do estudioso, de modo que ele comece a transitar pelo assunto entendendo o que está sendo dito. Ler de supetão os grandes clássicos, os originais, pode até ser uma estratégia que dê certo para muita gente, e por vezes é o que fazemos a contragosto. Minha sugestão para organizar os estudos e construir crescentemente conhecimentos sobre o objeto de estudo é iniciar pelo conteúdo mais mastigado, a fim de que o estudioso não perca o gosto pelo estudo e siga adiante, até chegar aos pontos mais profundos e complexos.

Segundo passo – A leitura

O segundo passo é aquele impossível de fugir: a leitura. Para aumentar os conhecimentos em Sociologia é inevitável aumentar a carga de leitura. Dói, não é fácil, mas tem que ler. E ler bastante. Mas eu acredito que ler com atenção e com um foco pré-determinado ajuda a dinamizar as leituras e não perder tempo naquilo que pouco vai acrescentar ou que é periférico sob o ângulo que o estudioso procura analisar.

Por isso, minha sugestão é fazer as leituras sempre procurando determinadas “dobras” do texto, isto é, procurando em que ponto o texto articula a sua centralidade, que geralmente remete a associação entre teoria e empiria. Quero dizer que procuro nos textos, antes de tudo, a clareza quanto ao seu objetivo principal, para logo depois achar essas dobras entre os argumentos. Procuro também conceitos que façam a “materialidade” dessas dobras, de preferência que possam ser ilustrados por exemplos de caráter empírico utilizados no texto. Em síntese, uma tríade de buscas: objetivos principais, dobras conceituais e dobras empíricas.

Há uma coisa a mais sobre a leitura. Eu sou um daqueles que lê em qualquer lugar, com relativa tranquilidade. Para aqueles que também são assim, sugiro que o façam mesmo com textos pesados e teóricos e mesmo que não haja possibilidade de fazer anotações e marcações. Mesmo assim, leiam. Porém, para aqueles que não lidam bem com leituras em locais movimentados ou transporte coletivo, por exemplo, sem problemas. Isso não necessariamente atrapalha, pois, provavelmente, estes dedicam outros tempos para a leitura.

O fato é que, uma hora ou outra, eu sempre considero importante fazer anotações a lápis no corpo do texto, sobretudo porque não tenho memória suficiente para guardar páginas e argumentos depois de alguns anos me dedicando a pesquisa e a docência em Sociologia. Podem ser marquinhas discretas, anotações ou o que bem o estudioso entender, mas precisa ficar claro que ali há algo que pode ser utilizado em outro momento, há algo importante.

Terceiro passo – A seleção contextualizada

O terceiro passo depende, em parte, da qualidade da leitura realizada. Depois de entender o contexto do assunto, procurar textos introdutórios e começar a lê-los, é preciso que o estudioso tenha capacidade de selecionar partes do texto que leu para organizar as suas ideias sobre o texto, no formato da escrita. Selecionar essas partes pode ser facilitado pelas marcações que o estudioso fizer no texto lido, e pode se ganhar bastante se forem selecionados trechos relativos aos objetivos principais e as dobras conceituais e empíricas supracitadas. É dessa seleção que sairá o texto sobre o texto, ou seja, é desta seleção que se realiza a escrita sobre aquilo que foi lido.

Quarto passo – A escrita

A página está em branco. É chegada a hora de usar o teclado do PC. O estudioso já pode estar mais seguro, já possui mais informações e já tentou selecionar aquilo que lhe cabia no texto lido, de modo a dar inicio a escrita. Proponho que se produzam textos que se localizam entre um fichamento (descrição do que foi dito no texto lido) e uma resenha (descrição com tons analíticos e críticos). Algo que se localize entre as duas propostas, no entremeio do fichamento e da resenha.

Minha sugestão é partir da organização lógica inerente ao próprio texto lido. Isso significa começar a escrever sobre a introdução e assim por diante, seguindo a ordem de início, meio e fim do texto lido. A operação básica é simples, ainda que complexa: escrever com palavras próprias as ideias que foram selecionadas, acrescentando ou não comentários. O estudioso vai escrevendo sobre o que diz o texto e vai compondo a sua escrita, e com o tempo a capacidade de fazer ligações entre assuntos e acréscimos próprios tende a aumentar.

No decorrer dos anos, se o estudioso guardar no seu arquivo de textos de sua autoria cada um dos escritos sobre cada assunto/autor que realizou a leitura, seu acervo será algo interessantíssimo, recheado de ideias, conceitos, referências empíricas e insights do próprio estudioso, constituindo um rico material de base para o ofício da pesquisa sociológica e da docência.

Quinto passo – A organização do acervo

Cada estudioso pode ter a sua organização, é verdade. Eu sugiro, modestamente, que se mantenham temáticas que dialogam próximas, assim como autores e conceitos, de modo a ajudar o estudioso a fomentar mentalmente ligações entre temáticas, autores e conceitos, auxiliando a criação intelectual. Creio que a forma mais organizada de fazer isso é separar os arquivos de Word em pastas temáticas, e entre os arquivos nomeá-los a partir do sobrenome do autor, seguido do nome e de um título para o texto. Exemplo: caprara, bernardo – roteiro para estudos.docx. Assim o acervo fica minimamente organizado.

Considerações finais

Com este breve roteiro, eu espero ter ajudado aos estudiosos da Sociologia a pensar na criação das suas próprias formas de organização dos seus estudos, das suas leituras e produções textuais. Individualmente, desde que comecei a adotar esses procedimentos, consegui organizar melhor essa parte relevante da minha vida profissional. Estes textos que se localizam entre os fichamentos e as resenhas, no acumulado, quebram um galhão para a prática cotidiana de pesquisa e docência em Sociologia. Têm sido “ferramentas” essenciais.
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terça-feira, 20 de março de 2018

Elias, liberdade individual e relações sociais


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A ideia de "liberdades individuais", para mais ou para menos, é um dos fundamentos das sociedades modernas. Na vida real, a perspectiva da garantia dos direitos individuais para as minorias de poder acaba violada em amplos aspectos. Isso coexiste com a retórica do mercado como bastião da liberdade. Para alguns, qualquer influência da sociedade na economia, via Estado, seria uma afronta à soberania dos indivíduos. Forja-se um caldeirão fervendo de apologia ao livre mercado e, tudo junto e misturado, adesão ao conservadorismo moral.

Certa vez, uma badalada representante política desse ultraliberalismo na economia disse a seguinte frase: "não existe essa coisa de sociedade; o que existe são os indivíduos e suas famílias". Esse genuíno preceito individualista tem pautado com força o debate político brasileiro. Ele projeta as realizações de cada pessoa suplantando a importância das relações que estabelecemos uns com os outros. É como se um amontoado de pedras soltas pudesse ser considerado uma casa.

O sociólogo alemão Norbert Elias ensina que, ao espaço objetivo das relações sociais, das relações cotidianas entre indivíduos, podemos dar o nome de "sociedade". Não se trata de pensar que o todo conforma a parte, ou a sociedade conforma o indivíduo. A questão é entender que somos, individualmente, produzidos na interdependência com outras muitas pessoas, no contexto de estruturas sociais que atravessam a vida individual e coletiva.

Uma sociedade pode ser vista como uma rede de tecido. Nessa rede, vários fios individuais se ligam uns aos outros, mas a totalidade da rede e a forma que cada fio assume não podem ser entendidas como resultado de um fio exclusivo ou mesmo de todos eles, se pensados individualmente. Para entender a rede, precisamos entender a maneira como se ligam os fios, a interdependência entre eles. Suas ligações dão formato a uma estrutura de tensões influenciada por cada um dos fios, de modo diferenciado conforme a localização e a função de cada fio para a totalidade da rede. Um fio individual pode ser modificado diante de alterações na estrutura das tensões e da própria rede como um todo. Porém, a rede segue sendo fruto de uma ligação entre fios individuais, cada fio constituindo uma unidade em si, com singularidade no interior da totalidade da rede.

Quais indivíduos queremos ser? Qual sociedade queremos para viver? De alguma forma, precisamos resgatar a noção prática de que nossa individualidade tem que ser garantida, mas pra isso depende da garantia das demais. Não é mais possível banalizar tanta desigualdade, tanta opressão e injustiça. A combinação entre liberdade absoluta aos interesses de mercado (uma "sociedade de mercado" e não mais uma economia de mercado regulada pelos interesses da sociedade), os variados fundamentalismos étnicos, morais e religiosos do tempo presente e um suporte tecnológico jamais visto pode gerar diferentes "absolutismos do século XXI", estruturas de relações e tensões bem distantes do ideal de uma sociedade aberta, democrática e plural.

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segunda-feira, 5 de março de 2018

Entre Hobbes e Thoreau

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Retomando as atividades profissionais, depois de um detox imprescindível, mais conhecido como “férias”, não dá pra esquecer a situação desse Brasil de minhas Deusas. Daí que lembrei um TCC interessantíssimo que orientei há pouco tempo. A estudante, hoje licenciada em Filosofia, articulou a teoria contratualista de Thomas Hobbes com a desobediência civil pregada por Henry Thoreau.

Ao apresentar a fórmula da necessidade do Estado para Hobbes, ela mostrou que o medo e a insegurança extrema podem levar as pessoas a aderir ao absolutismo, delegando todos os poderes ao “soberano”. Só que, para isso, o “todo-poderoso” precisa garantir, de fato, a segurança dos indivíduos e suas propriedades. Se essa “troca” não se concretiza por parte do “soberano”, os “súditos” teriam alguma brecha para contestar o “contrato”.

Aí poderia entrar a desobediência civil proposta por Thoreau. Quase como um pressuposto moral do indivíduo, que não aceitaria apenas ceder a sua liberdade para um governo com plenos poderes, sem que fosse garantida, na prática, a contrapartida da segurança, desobedecer caracterizaria um ato de resistência legítima.

Duas matrizes de questões se sobrepõem: em primeiro lugar, mesmo que uma maioria esmagadora da sociedade brasileira estivesse disposta a ceder o que resta da sua liberdade em troca de segurança pessoal, está mesmo o Estado apto a cumprir a promessa? Suas instituições, que deveriam promover o mínimo de bem-estar, estão presentes com qualidade nas áreas mais vulneráveis do país? Estão trabalhando para ajudar a diminuir o abismo social que perdura há séculos por aqui? Suas forças de repressão oferecem segurança?

Depois, quais as estratégias válidas e eficazes de desobediência civil num contexto de concentração acentuada de riquezas, no qual borbulham fanatismos e autoritarismos? Poderíamos pensar a desobediência a partir do trabalho de base contra opressões e desigualdades, das práticas de economia colaborativa dispersas em ações de micropolítica ou mesmo da busca por consolidar uma espécie de “gestão comum” (compartilhada, horizontal, cooperativa) de determinados bens prioritários para o planeta e a espécie humana?

A primeira matriz de indagações parece ter respostas óbvias. Já a segunda pode indicar um caminho reflexivo para a proposição de uma nova utopia política, com a cara do século XXI, contra e para além da mercantilização de todos os aspectos da vida, e radicalmente democrática no respeito à diversidade e na horizontalidade das decisões que afetam a vida de todos nós. Uma tarefa e tanto.

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Sonhar é preciso

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Perto de completar mais uma volta na Terra, fico sonhando acordado. Desperto para ler Fernando Pessoa, na figura de Álvaro de Campos: “Não sou nada. Não serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

Venho sendo mais modesto. Há alguns anos, no meio da graduação, comentei com um colega, que já era professor: “meu sonho é dar aula num colégio estadual”. O rapaz sorriu amarelo, como se perguntando: “sério isso?!”.

Anos antes, meu sonho era ver o Internacional campeão. E, quem sabe, campeão dos campeões. Sonho sonhado por uma multidão, mas também pela futilidade de um jovem estudante. Sonho vivido de dentro, nas entranhas da catarse colorada.

Ainda muito antes, sonhei com várias pequenas coisas. Cultivar boas amizades, amar, viajar, ler discos e escutar livros, comer e beber bem. Também arrisquei ousar um pouco: sonhei em escrever diversas coisas, contar muitas histórias para diferentes públicos.

Sigo alimentando sonhos miúdos, utópicos, desacreditados pelas sociedades dominadas por valores de mercado. “Sonhinhos” que me fazem arregaçar as mangas e lutar para que eles, ao se realizarem (ou não), acabem dando lugar para novos rebentos "sonháticos".

O importante é não parar de sonhar. Seja com a igualdade e a liberdade para todos, com uma barraca e um café da manhã à beira da praia ou com uma sociedade feita de pessoas que gostem de ler, entendam o que leem e fomentem a leitura e a escrita.

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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Utopia e realidade

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No restinho de 2017, deixamos a Cidade da Bahia. Depois de passar pelo Sertão, chegamos à Chapada Diamantina. Ali, no Vale do Capão, deu pra sentir a conexão com uma vida utópica, em que conta mais o sentir do que o ter, e tudo parece fazer sentido.

Nessa toada de integração com a natureza, de humildade, solidariedade e alegria, subimos o morro rumo à Cachoeira da Fumaça. Na trilha, porém, o "líder" de um grupo de turistas, no auge da ladeira, cantarolava a plenos pulmões: "O Bope tem guerreiros, que matam guerrilheiros...". Aceleramos o passo.

A humanidade é mesmo complexa. Aquela aberração musical não constrangeu a nossa feliz trajetória. No fim de tarde, seguimos para outra cachoeira, batizada de "Angélica". Na estrada, meio perdidos, pedimos informação para uma pedestre qualquer. Acabamos oferecendo uma carona para a moça.

Elaine, natural de Palmeiras, uma cidade da região, mostrou o caminho e contou que estava indo trabalhar. Era seu dia de folga, mas a outra funcionária da pousada havia dado para trás. Bem naquele dia, aniversário de um dos filhos dela. De cara, ela contou que os R$ 70 que tirava por dia eram necessários, mas que a tristeza era grande por estar longe de casa naquele instante.

O pior estava por vir. Consternados, seguimos conversando. Elaine nos mostrou, então, a razão de a exploração do trabalho ainda ser uma pauta central, inclusive em lugares nos quais a utopia se confunde com a realidade. Disse a garota: "O pior é que os patrões são, tipo, formados em direitos humanos. Pra mim, se a gente se forma, a gente deve ajudar a melhorar a vida das pessoas. Faz o cálculo e vê quanto custa a minha hora de trabalho. Eu pego às seis e saio às 20h".

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