SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 29 de maio de 2018

Crônica da Caixa de Pandora

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

No Brasil continental, cheio de águas e perfeito para ferrovias, mas refém das estradas e do petróleo, durante o caos alguém viraliza nas redes sociais: “Abriram a Caixa de Pandora!”.

Do lado direito, bem na ponta, dedos nervosos distribuem suas verdades incontestáveis, recebidas no grupo da família, em perfeito português: “Tanbén, Pandora é uma puta comunista, tem mais é que arregassar a Caixa dela e cagar ela à pal!”.

Ainda à direita, menos na ponta, o tom é acadêmico: “Pandora interveio demais na Caixa, tem que deixar a Caixa se autorregular que tudo acaba livre e justo”.

Há também os dedos ativos à esquerda. Bem na ponta (a ponta que não é ponta, porque ponta é uma construção social e, assim, deve-se desconstruir a ponta), a avaliação é lacradora: “Pandora, no fundo, adora passar pano pra essa cambada toda, ela não joga no nosso time. Eu avisei”.

Como tendo ao canhotismo, sigo atento, agora à ponta esquerda tradicional: “Pandora precisa organizar a Caixa, falta a ela uma vanguarda esclarecida, capaz de conscientizá-la para a Revolução”.

Tem a turma do deixa-disso, os legalistas da época em que uma gambiarra mantinha a Caixa fechada, ou quem se atira no raso e aplaude o circo pegar fogo – a Caixa, no caso.

Nessa confusão toda, só não podem faltar os dedos ativos e os corpos curvados, focados no espelho preto dos dispositivos, reservatório das nossas próprias mazelas.

Pandora, por si só, não deixa por menos: abre mesmo a Caixa, fiel a sua curiosidade. Os males do mundo se debatem. Só a esperança permanece presa. O fogo consome a civilização. Segue o baile. Os de cima, sobem. Já os de baixo, se deixar, vão descer mais e mais.

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