SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 10

América do Sul, Brasil,
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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Desamparados e febris

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Um das coisas que fico pensando, agora que o ovo da serpente está eclodindo, é no gigantesco desamparo em que nos encontramos enquanto sociedade. Como parar de agir não é possível, agimos desamparados

Tirando quem legitima e/ou procura justificar assassinatos de opositores políticos, espancamento de homossexuais, mulheres e negros, que não me parece ser a maioria, muitos se sentem perdidos, desamparados, revoltados. Como ajudar para que esses não acabem nadando no esgoto do fascismo?

Pensando rápido com a psicanálise, nossas ações podem se orientar por uma “demanda” ou pelo “desejo”. Uma ação orientada por uma demanda tem o desamparo como ponto de chegada, porque procura no outro um reconhecimento, um amparo narcísico. Só que o outro pode sempre dar de ombros para a nossa demanda, o desamparo prosseguir, e a busca também.

A ação orientada pelo desejo tem o desamparo como ponto de partida. Percebendo o desamparo, os desejos recalcados no inconsciente nos movem, orientam os impulsos para a ação. Agimos e nem pensamos “por que faço isso?!”.

No cruzamento do desamparo como ponto de chegada e partida, tudo aquilo que a sociologia crítica vem dizendo há tempos sai do armário de muita gente. A verdade é que as condições de possibilidade do fascismo permaneceram por aí, década após década, brotando em meio a uma sociedade em que tudo seguia mercantilizado e a maioria excluída e humilhada.

Aí, a demanda por ser reconhecido pelo outro explode em adesão ao homem bruto e autoritário, quase num efeito manada, perfeitamente adequado a uma sociedade que nunca pagou suas contas com seus múltiplos passados e presentes de opressão.

Aí, o desejo recalcado no inconsciente, condicionado por violências diversas, humilhações, vergonhas e impotências, explode no agir desejoso de escolher um caminho perverso, um caminho que replique e multiplique as próprias mazelas num espelho sombrio.

Não acho que tenhamos 50 milhões de fascistas no Brasil. Então parece claro que há uma verdadeira máquina de guerrilha simbólica invadindo nossos desamparos e acessando nossas demandas e desejos mais escondidos, manipulando nossas pulsões de destruição.

Numa das sociedades mais violentas e desiguais do mundo, é urgente conseguir acessar o desamparo em nós mesmos e no vizinho, no colega de aula, no parceiro de trampo.

Para diminuir os efeitos da longa noite que se avizinha, vamos precisar, numa espécie de contra-máquina simbólica, tocar na nossa subjetividade mais íntima, em demandas e desejos que nos façam agir pela comunhão, pela igualdade, pela liberdade e pelo respeito.

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