SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 11

América do Sul, Brasil,
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segunda-feira, 17 de junho de 2019

O método sociológico em Weber


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Contrariando qualquer forma de determinismo, o alemão Max Weber é considerado um dos clássicos da Sociologia e fundador de uma tradição bastante fecunda nas Ciências Sociais. Weber destoa dos autores que propunham abordagens metodológicas para as ciências da sociedade a partir de laços estreitos com as ciências da natureza. Segundo o autor, não é possível tratar as relações entre seres humanos como “coisas”, ou encontrar uma “linha mestra” (teleológica) da História humana.

Para produzir uma ciência da vida social, é fundamental compreender a ação das pessoas desde o ponto de vista do sentido e dos valores que elas atribuem às suas ações, e não simplesmente desde pretensas causas e condicionamento externos. A trajetória de Weber abrange a proposição de construir um quadro conceitual para dar conta do conjunto das atividades humanas, situando-as nos seus períodos históricos específicos. Às ciências do comportamento humano cabe resgatar e compreender a marca característica de cada época e de cada cultura, demarcando-as na dimensão dos fatos, e não das abstrações por si só.

Weber deixa claro que é preciso separar a Sociologia da opinião. A Sociologia não teria como objetivo amparar reformas ou revoluções sociais, na medida em que demanda uma “neutralidade axiológica”, um guia para o cientista social capaz de mantê-lo sempre atento às diferenças entre o que é “normativo” e o que é “real”, ou entre o que é “juízo de valor” e o que é “juízo de fato”. Nada disso significa que o sociólogo não possua valores pessoais ou opiniões sobre quaisquer fenômenos da vida coletiva, mas, sim, que esses juízos de valor não podem macular o trabalho científico, ligado aos juízos de fato. A Sociologia não é uma atividade especulativa ou uma analítica conectada ao exercício da política.

Não obstante, como se pode definir o método sociológico, na visão weberiana? Na perspectiva de Max Weber, a Sociologia deve ser definida como uma ciência que pretende compreender e interpretar as atividades sociais e, assim, capacita-se a explicar as causas, os processos e os efeitos das ações humanas em sociedade. Tais atividades sociais são definidas pelo autor como “ação social”, caracterizando o comportamento humano que produz sentidos subjetivos e se orienta e se relaciona com o comportamento de outras pessoas. Dessa forma, nem toda atividade ou ação humana é uma “ação social”, pois ela demanda uma relação ou orientação para com outras pessoas ou grupos de pessoas. A compreensão e a interpretação das causas e efeitos das ações sociais constituem o objeto próprio da análise sociológica.

A Sociologia weberiana é uma ciência compreensiva e explicativa, cujo centro analítico reside em compreender e explicar os valores e sentidos pelos quais se pautam as ações sociais. Contudo, essa dimensão compreensiva em termos metodológicos não é uma criação de Weber, mas remete ao filósofo alemão Wilhelm Dilthey e a toda uma posterior corrente de pensadores “neokantianos”. Com a obra “Introdução às ciências do homem” (1883), Dilthey promove uma separação relevante entre os métodos das ciências da natureza e os métodos das “ciências do espírito”. A distinção principal entre os métodos se deve ao fato de que as ciências humanas lidam com seres dotados de consciência e que agem motivados por valores, crenças, representações e racionalidade, não se limitando a reagir aos estímulos dos ambientes que frequentam.

Em virtude disso, as ciências humanas não podem se vincular ao positivismo, e precisam adotar o método compreensivo, reconstituindo o sentido que os indivíduos atribuem às suas ações. Os fenômenos sociais não são simples consequências de pressões externas ou causas que se impõem às pessoas. A vida em sociedade é o resultado das decisões levadas a cabo pelos próprios indivíduos, que agem produzindo sentido às suas ações. Em Weber, a procura por evidenciar as causas dos fenômenos sociais é o complemento lógico da Sociologia compreensiva. Explicar é perceber a analisar o efeito de uma ação X sobre uma ação Y, buscando as conexões entre as ações sociais através de cadeias causais. Quando se dá forma a esse encadeamento causal, faz-se perceptível as possíveis contradições e os possíveis conflitos oriundos dos sentidos dados pelos indivíduos no decurso das suas ações.

Conforme o sociólogo alemão, a vida em sociedade possui uma pluralidade de causas, sendo cada sociedade singular e passível de ser explicada por meio de uma combinação de múltiplos fatores: econômicos, políticos, culturais, morais e etc. A ciência da sociedade pode apontar tendências e probabilidades. A Sociologia não tem condições de dizer o que os indivíduos devem fazer, pois ela é uma ciência empírica, devendo analisar aquilo que os sujeitos podem ou querem fazer. Weber se utiliza das comparações em diversos momentos da sua obra, o que fornece a possibilidade de destacar as singularidades das configurações históricas, sociais, religiosas e etc. – tudo aquilo que o cientista social pode estudar.

Weber sugere, ainda, o uso de um instrumento conceitual definido como “tipo ideal”. Na tarefa de analisar as ações sociais, o cientista pode criar categorias que não consistem em representações exatas dos fenômenos estudados, mas acentuam deliberadamente determinados trações desses fenômenos. O tipo ideal não é um espelho da realidade, mas auxilia na análise dos componentes da realidade a ser pesquisada. Trata-se de uma ferramenta de investigação com fundamentos totalmente lógicos, e não um fim em si mesmo. O tipo ideal é útil, também, para a busca de causalidades, pois comparando a realidade de um fenômeno e a lógica do seu tipo ideal, o sociólogo pode captar e confirmar a coerência do fenômeno e distinguir as causas exteriores que recaem sobre ele.

Referências

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais. São Paulo: Editora Cortez, 2016.

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sábado, 15 de junho de 2019

Justiça caolha

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Enquanto eu lia as primeiras conversas nada republicanas entre nossas autoridades judiciais, uma verdadeira balbúrdia ocorria no busão que me levava ao trabalho.

Nem a visão da estátua da liberdade estilo "falsiane" foi capaz de acalmar os ânimos: havia uma poltrona molhada e parecia mijo.

Até tirei os fones de ouvido. Ao meu lado, o acusador derramava sua tese. Dizia que, se havia um homem com um cão no veículo (e havia), eles eram os culpados pela poltrona pretensamente mijada.

O homem com o cão negava a autoria do delito. Declarava não haver provas contra si e seu simpático animal.

O ônibus parou numa das 78 estações. O juiz - o piloto - foi avisado do quiprocó. O clima de tensão crescia no ar.

Logo, grupos de apoiadores estavam formados. E raivosos. E cada vez mais numerosos. O busão ardia.

Os apoiadores da acusação gritavam palavras de ordem contra cães em transportes coletivos.

Os apoiadores do acusado afirmavam não haver provas, apenas teorias, ilações que se passavam por evidências.

Na parada seguinte, o motorista deu o veredito: o rapaz com o cão teria que sentar na poltrona molhada/mijada.

O rebuliço virou um caos. Os apoiadores da acusação babavam e vibravam. Nos apoiadores do acusado via-se a cólera de quem se sente injustiçado.

Contrariados, o homem e seu cachorro sentaram na poltrona da discórdia. A viagem seguiu, assim como eles seguiam defendendo a sua inocência.

Na parada seguinte, um garoto que olhava tudo com atenção, desconfiado de todos, pediu a palavra. Dizia ter visto e gravado uma conversa entre o juiz e o acusador. Nela, o piloto defendia o veto de cães em viagens rodoviárias.

Porém, não era só isso. O juiz e o acusador seriam velhos conhecidos, e o segundo teria lembrado o primeiro de que era preciso ser contra cachorros viajantes para mudar o país. De quebra, alcançaria um cargo melhor na empresa.

Já não consigo descrever o que se tornou minha ida ao trabalho. Ninguém confiava mais em ninguém. Era mesmo um faroeste - caboclo, canarinho e canino.

No fim, ainda bem que ninguém estava armado. Ah, e a justiça? Essa mais parecia uma jararaca caolha, ou só agia como a carrocinha mesmo.

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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O método sociológico em Marx


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O materialismo histórico e dialético proposto por Karl Marx está associado a uma concepção de realidade, de mundo e da vida em sociedade. Ao entrar em contato com os problemas sociais da Alemanha, Marx começa a desenvolver uma concepção materialista, procurando entender os problemas concretos das vidas das pessoas.

Os estudos de Marx provinham do método de pesquisa e pensamento de Friedrich Hegel, com o seu modelo idealista orientado pela lógica dialética. Para Hegel, o pensamento metafísico se pautava pela tendência a perceber os conceitos de modo estático, separados uns dos outros, com a definição isolada do sujeito e do objeto. Contrapondo a metafísica, Hegel define o desenrolar da história humana não como um fio dotado de continuidade e linearidade, mas como um devir formado por uma tríade localizada no mundo das ideias: uma afirmação (tese), uma negação (contradição, antítese) e a negação da negação (síntese).

Essa perspectiva se associa ao conceito de “dialética”, retirado da filosofia pré-socrática, sobretudo no “embate” entre Heráclito e Parmênides. Enquanto o primeiro sustentava que tudo está em constate movimento e transformação (“o rio que nos banhamos nunca é o mesmo, nem mesmo nós somos”), o segundo defendia a tese de que o movimento e a transformação constituem apenas um mundo de aparências, sendo a “essência” algo imutável.

Marx adere à leitura dialética da história, seguindo sua leitura de Hegel. Contudo, em contato com as teorias materialistas, sobretudo de Ludwig Feuerbach, passa a ser influenciado pela abordagem que não vê nas ideias (idealismo, como em Hegel) o eixo articulador das atividades humanas, mas no mundo material o seu foco principal. Trata-se de uma inversão da dialética hegeliana, priorizando a matéria antes das ideias, o que acaba definindo o “materialismo histórico e dialético” como o método analítico marxiano.

O materialismo histórico e dialético fundamenta-se no método dialético de Hegel, salientando não o mundo das ideias, mas mundo material. Marx entende que, na produção social da sua existência, os seres humanos tecem relações específicas que são independentes das suas vontades particulares, mas dizem respeito a relações de produção material. Essas relações de produção, em conjunto, conformam a estrutura econômica das sociedades, a base sob a qual se ergue a superestrutura jurídica, política, religiosa e etc, que correspondem a determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida concreta, material, condiciona o desenvolvimento da vida em sociedade, da vida política e intelectual como um todo. Marx deixa claro que, no se esquema analítico, não é a consciência dos homens que define a sua vida social, mas a sua vida social que define a sua consciência.

É preciso, também, fazer uma distinção entre o método de exposição formal e o método de pesquisa, em Marx. A pesquisa necessita captar detalhadamente a matéria, analisar suas diferentes formas de evolução e investigar as suas íntimas relações. Terminado esse trabalho minucioso de pesquisa, torna-se possível expor adequadamente o movimento do real. A exposição deve espelhar em forma de ideias o que acontece na vida material, na vida concreta dos seres humanos em sociedade, num determinado momento histórico e nas suas relações com o passado.

Dessa forma, o percurso do método de pesquisa é mais amplo, mais detalhado, sendo que o método de exposição expressa uma síntese da análise concreta, que pode ser apresentada, inclusive, em sequência diferente de como foi aplicado o método de pesquisa. Isso porque o método de exposição das conclusões de qualquer estudo deve primar por apresentar os resultados de maneira pormenorizada, fazendo com que estes resultados sejam claramente compreendidos por outras pessoas.

No materialismo histórico e dialético, entender a realidade social demanda analisar, pelo pensamento, um conjunto amplo de relações, particularidades, detalhes que compõem uma totalidade. Se o objeto de análise do pensamento é mantido isolado, ele se torna imobilizado no próprio pensamento, convertendo-se numa mera abstração metafísica. Contudo, a abstração é uma fase intermediária, pois, partindo de um mundo concreto e o levando até o nível da abstração, fica possível chegar a um concreto mais complexo, capaz de captar o que é verdadeiramente importante. Sem passar pela abstração, o concreto é apenas superficial, vinculado apenas às aparências.

O principal trabalho de pesquisa de Marx, a crítica rigorosa do capital, mostra-se como um exemplo evidente do uso do materialismo histórico e dialético, na busca por revelar a dinâmica da produção e da transformação do ser social produzido pelas relações de produção capitalistas. O método marxiano procura partir do real, do concreto, do olhar caótico sobre um todo desorganizado; depois, analisando com maior precisão, utilizando dos recursos da abstração, procura delimitar conceitos cada vez mais simples; por fim, do concreto permeado por abstrações, bastante detalhado, procura iluminar as determinações do fenômeno em estudo de maneira simples e objetiva. 

Referências

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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quinta-feira, 23 de maio de 2019

O método sociológico em Durkheim


 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A obra de Émile Durkheim deve ser pensada em contato com o período histórico em que estava inserida: a III República Francesa, cuja principal “obsessão” era unir a nação, superar incertezas políticas e resolver a “questão social” por meios pacíficos e através do direito. Diante disso, Durkheim ficou conhecido como um dos fundadores da Sociologia, pois participou da sua institucionalização enquanto disciplina acadêmica É nesse contexto que Durkheim elabora o que ele chama de “regras do método sociológico”.

A Sociologia durkheimiana é a ciência dos fatos sociais. Os fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir, fixas ou não, que exercem coerções exteriores sobre os indivíduos. Podemos pensar no direito, de imediato, como um fato social por excelência, tendo em vista que as leis constrangem as pessoas a segui-las, agindo de maneira coercitiva sobre os indivíduos. Porém, Durkheim ressalta que não apenas o direito, mas outros diversos fenômenos sociais guiam nossas práticas, quase como sistemas de regras invisíveis, como o modo de se vestir, de consumir, de pensar e etc.

A tarefa principal do sociólogo é destacar e analisar esses comportamentos que se traduzem em regularidades determinadas socialmente. Em outras palavras, cabe ao sociólogo observar e explicar os fatos sociais (e sua causalidade) com o apoio de categorias e instrumentos científicos. Os fatos sociais são, portanto, o objeto próprio e específico da Sociologia.

Na esteira da lógica científica, a primeira consideração a ser feita no trabalho sociológico é a necessidade de tratar os fatos sociais como “coisas”. No entanto, é preciso atenção nesse ponto. Isso não significa que os fatos sociais devam ser reduzidos a fatos naturais. Para Durkheim, tratar os fatos sociais como “coisas” equivale ao tratamento dado pelos cientistas naturais sobre seus objetos de estudo, isto é, observar “de fora” o seu objeto de investigação científica. O sociólogo deve saber se colocar à distância dos fatos sociais que pretende analisar, e manter sempre a busca pela maior objetividade possível nas suas análises.

Ocorre que temos aí uma complicação para uma ciência que trata de fenômenos nos quais os próprios cientistas estão mergulhados – os sociólogos habitam o mundo social. Por isso, Durkheim defende que é imperativo “afastar sistematicamente as prenoções” que possuímos da vida em sociedade, no decurso do trabalho sociológico. É fundamental rejeitar as chamadas “falsas evidências” que a nossa experiência sensível com o mundo social nos lega cotidianamente. O social não é e não pode ser visto pelo sociológo como algo transparente e inteligível de imediato. Essa é uma primeira característica essencial do método sociológico durkheimiano.

Um segundo ponto relevante diz respeito ao desiderato que compete ao sociólogo no percurso de construção dos seus objetos de estudo, a regra de isolar e definir com precisão aguçada a categoria de fatos que se propõe a pesquisar. Numa analogia com a biologia médica, o autor separa o que se considera “normal” do que se considera “patológico”. O fato social “normal” tem relação com um tipo social determinado, numa fase determinada de seu desenvolvimento e que se produz na média das sociedades do mesmo tipo, numa fase específica da sua evolução. O crime, por exemplo, é um fato social normal, pois não se conhece sociedades sem a existência de crimes.

É primordial, ainda, um terceiro ponto metodológico em Durkheim. Fugindo de especulações que, para o autor, não mereceriam sequer uma hora de seus esforços de pesquisa, é preciso explicar os fatos sociais por fatos sociais anteriores, e não por elementos biológicos, psicológicos e etc. O sociólogo tem de priorizar o “método das variações concomitantes”, que consiste na comparação das variações respectivas das variáveis estudadas. O conjunto de regras metodológicas pensado por Durkheim fornecem as bases do que poderíamos chamar de racionalismo positivista.

Referências

DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

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quinta-feira, 16 de maio de 2019

O leitor e os insetos

 Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Diante do ataque à educação no Brasil, lembrei uma viagem de ônibus que fiz com uma galera bem diversa. Tinha gente de classe média, classes populares, negros, brancos, mulheres, enfim, uma gurizada heterogênea.

Lá pelas tantas, quando a empolgação parecia ter baixado e a rapaziada parecia se encaminhar para um breve descanso, alguém apontou sem dó, nem piedade: “Olha ali, tem um leitor no bus!!!”.

Foi aquele rebuliço. Todo mundo folgando no rapaz. “Um leitor, pqp!!!!”. “Vai ler na casa do car..., rapá!”. “Ui, ui, ui, olha ali, todo leitorzinho!”.

A relação das pessoas com o conhecimento, sobretudo em países com acesso muito desigual, como o Brasil, tende a ser bastante estranha e contraditória.

De um lado, muitas famílias focam nos estudos a única possibilidade de ascensão social. De outro, muitas vezes o malandro costuma ser aquele que se dá bem na escola ou na universidade sem estudar ou se esforçar.

Óbvio que a arrogância intelectual é o outro polo do problema. Tenho convicção que as pessoas e instituições que trabalham com conhecimento precisam sair de suas bolhas e botar a cara no mundo. Além, é claro, de não reproduzir preconceitos linguísticos ou se achar o centro do universo.

Porém, destruir as principais instituições de ensino e pesquisa de uma nação não colabora para democratizar o conhecimento. Tem mais a ver com ressentimento, ódio ideológico e interesses econômicos das instituições privadas de educação do que outra coisa.

Trabalhar para não confundir “cônjuge” com “conje”, “rusgas” com “rugas” ou Franz Kafka com um “Kafta” imaginário, não me parece arrogância. Assim como apenas isso não resolve nossos problemas sociais.

Só não dá pra vangloriar a ignorância e achar que o paraíso nos espera. Ou muitos de nós seguirão dormindo como humanos e "acordando" como insetos.

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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Roteiro para estudo e escrita em Sociologia


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Introdução

Antes de começar a fazer pesquisa sociológica, antes de botar a mão na massa, produzir, organizar ou selecionar e analisar dados empíricos à luz das teorias, o cientista social precisa ter uma capacidade razoável de leitura e produção textual. Como um pressuposto, o cientista social precisa conseguir absorver das leituras que faz, e que precisam ser muitas, os seus pontos principais e as articulações que eles sugerem. Isso acaba inapelavelmente passando por escrever sobre teorias, autores, conceitos, debates e etc.

Essa responsabilidade traz problemas. Primeiro, em função de que, salvo valiosas experiências no âmbito da educação formal, pouco se ensina “a estudar” aos nossos jovens. Medidas básicas de organização das atividades de estudo podem ajudar a fazer a coisa acontecer. Segundo, porque não costumamos nos sentir preparados para sair escrevendo, seja porque a vida acadêmica é altamente competitiva e feita de pressões diversas, seja porque temos dificuldade mesmo de botar para fora as ideias que fervilham nas nossas mentes.

A partir desse problema, elaborei um roteiro básico para minhas atividades de estudo e produção textual em Sociologia, uma parte relevante das minhas atividades profissionais, o que tem me ajudado a ler e escrever de maneira mais organizada. É obvio que essas dicas em forma de roteiro não se pretendem científicas, muito longe disso. Trata-se apenas de uma forma de organizar as atividades de estudo e escrita para interessados em Sociologia, buscando auxiliar a mim mesmo, nessas que são incumbências intrínsecas ao trabalho sociológico. Se para mais alguém isso for útil, será uma satisfação.

1 Dimensões e passos do roteiro proposto

O roteiro envolve três dimensões: (1) o contexto da temática em estudo; (2) a leitura dos textos da temática em estudo; (3) e a escrita sobre as leituras realizadas. São dimensões que se entrelaçam e, com o tempo, acabam certamente se confundindo. Por exemplo, um praticante que já tenha um acúmulo grande de leituras e textos escritos, já conheceu e versou sobre o contexto da temática, pode transitar com facilidade entre este ou aquele aspecto que pretenda dissertar, inclusive fundindo diferentes perspectivas e criando novos laços conceituais e teóricos. Se o estudioso fizer sempre, em todas as leituras e temáticas que se debruçar, essa espécie de artesanato sociológico, com o passar do tempo acumulará um grande acervo de textos próprios sobre muitos assuntos, autores e teorias, ampliando seus recursos de trabalho. Penso que essa lógica de estudo e produção textual vale para textos variados da Sociologia (metodológicos, teóricos, artigos científicos, teorias, etc.). Sugiro cinco passos básicos para operacionalizar este roteiro de estudo e escrita.

Primeiro passo – A contextualização

A primeira coisa a fazer é procurar algumas informações sobre o assunto/autor que se deseja estudar. Penso que sempre vale a pena começar pelas ideias gerais, pelas pessoas que comentam as grandes obras e grandes pesquisas. Isso significa começar por abordagens mais superficiais, sem dúvidas, mas justamente para abrir os caminhos do estudioso, de modo que ele comece a transitar pelo assunto entendendo o que está sendo dito. Ler de supetão os grandes clássicos, os originais, pode até ser uma estratégia que dê certo para muita gente, e por vezes é o que fazemos a contragosto. Minha sugestão para organizar os estudos e construir crescentemente conhecimentos sobre o objeto de estudo é iniciar pelo conteúdo mais mastigado, a fim de que o estudioso não perca o gosto pelo estudo e siga adiante, até chegar aos pontos mais profundos e complexos.

Segundo passo – A leitura

O segundo passo é aquele impossível de fugir: a leitura. Para aumentar os conhecimentos em Sociologia é inevitável aumentar a carga de leitura. Dói, não é fácil, mas tem que ler. E ler bastante. Mas eu acredito que ler com atenção e com um foco pré-determinado ajuda a dinamizar as leituras e não perder tempo naquilo que pouco vai acrescentar ou que é periférico sob o ângulo que o estudioso procura analisar.

Por isso, minha sugestão é fazer as leituras sempre procurando determinadas “dobras” do texto, isto é, procurando em que ponto o texto articula a sua centralidade, que geralmente remete a associação entre teoria e empiria. Quero dizer que procuro nos textos, antes de tudo, a clareza quanto ao seu objetivo principal, para logo depois achar essas dobras entre os argumentos. Procuro também conceitos que façam a “materialidade” dessas dobras, de preferência que possam ser ilustrados por exemplos de caráter empírico utilizados no texto. Em síntese, uma tríade de buscas: objetivos principais, dobras conceituais e dobras empíricas.

Há uma coisa a mais sobre a leitura. Eu sou um daqueles que lê em qualquer lugar, com relativa tranquilidade. Para aqueles que também são assim, sugiro que o façam mesmo com textos pesados e teóricos e mesmo que não haja possibilidade de fazer anotações e marcações. Mesmo assim, leiam. Porém, para aqueles que não lidam bem com leituras em locais movimentados ou transporte coletivo, por exemplo, sem problemas. Isso não necessariamente atrapalha, pois, provavelmente, estes dedicam outros tempos para a leitura.

O fato é que, uma hora ou outra, eu sempre considero importante fazer anotações a lápis no corpo do texto, sobretudo porque não tenho memória suficiente para guardar páginas e argumentos depois de alguns anos me dedicando a pesquisa e a docência em Sociologia. Podem ser marquinhas discretas, anotações ou o que bem o estudioso entender, mas precisa ficar claro que ali há algo que pode ser utilizado em outro momento, há algo importante.

Terceiro passo – A seleção contextualizada

O terceiro passo depende, em parte, da qualidade da leitura realizada. Depois de entender o contexto do assunto, procurar textos introdutórios e começar a lê-los, é preciso que o estudioso tenha capacidade de selecionar partes do texto que leu para organizar as suas ideias sobre o texto, no formato da escrita. Selecionar essas partes pode ser facilitado pelas marcações que o estudioso fizer no texto lido, e pode se ganhar bastante se forem selecionados trechos relativos aos objetivos principais e as dobras conceituais e empíricas supracitadas. É dessa seleção que sairá o texto sobre o texto, ou seja, é desta seleção que se realiza a escrita sobre aquilo que foi lido.

Quarto passo – A escrita

A página está em branco. É chegada a hora de usar o teclado do PC. O estudioso já pode estar mais seguro, já possui mais informações e já tentou selecionar aquilo que lhe cabia no texto lido, de modo a dar inicio a escrita. Proponho que se produzam textos que se localizam entre um fichamento (descrição do que foi dito no texto lido) e uma resenha (descrição com tons analíticos e críticos). Algo que se localize entre as duas propostas, no entremeio do fichamento e da resenha.

Minha sugestão é partir da organização lógica inerente ao próprio texto lido. Isso significa começar a escrever sobre a introdução e assim por diante, seguindo a ordem de início, meio e fim do texto lido. A operação básica é simples, ainda que complexa: escrever com palavras próprias as ideias que foram selecionadas, acrescentando ou não comentários. O estudioso vai escrevendo sobre o que diz o texto e vai compondo a sua escrita, e com o tempo a capacidade de fazer ligações entre assuntos e acréscimos próprios tende a aumentar.

No decorrer dos anos, se o estudioso guardar no seu arquivo de textos de sua autoria cada um dos escritos sobre cada assunto/autor que realizou a leitura, seu acervo será algo interessantíssimo, recheado de ideias, conceitos, referências empíricas e insights do próprio estudioso, constituindo um rico material de base para o ofício da pesquisa sociológica e da docência.

Quinto passo – A organização do acervo

Cada estudioso pode ter a sua organização, é verdade. Eu sugiro, modestamente, que se mantenham temáticas que dialogam próximas, assim como autores e conceitos, de modo a ajudar o estudioso a fomentar mentalmente ligações entre temáticas, autores e conceitos, auxiliando a criação intelectual. Creio que a forma mais organizada de fazer isso é separar os arquivos de Word em pastas temáticas, e entre os arquivos nomeá-los a partir do sobrenome do autor, seguido do nome e de um título para o texto. Exemplo: caprara, bernardo – roteiro para estudos.docx. Assim o acervo fica minimamente organizado.

Considerações finais

Com este breve roteiro, eu espero ter ajudado aos estudiosos da Sociologia a pensar na criação das suas próprias formas de organização dos seus estudos, das suas leituras e produções textuais. Individualmente, desde que comecei a adotar esses procedimentos, consegui organizar melhor essa parte relevante da minha vida profissional. Estes textos que se localizam entre os fichamentos e as resenhas, no acumulado, quebram um galhão para a prática cotidiana de pesquisa e docência em Sociologia. Têm sido “ferramentas” essenciais.
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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Neoliberalismo e a nova razão do mundo


Por Felipe Queiroz
Ciência Política Unicamp

Publicado originalmente na França em 2009, logo após a eclosão da crise financeira global, A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (Dardot; Laval, 2016) apresenta uma profunda análise do neoliberalismo, mostrando como ele constitui, muito além de uma doutrina econômica ou ideologia, uma nova racionalidade de mundo, que estrutura e organiza tanto as ações dos governantes como a própria conduta dos governados. A obra faz uma genealogia do neoliberalismo para mostrar, por um lado, que ele não é uma simples continuidade do liberalismo clássico do século XVIII, do mesmo modo que não é seu extravio nem sua negação, e, por outro lado, para problematizá-lo a partir de suas vertentes e disputas internas, mostrando como ele passou de uma doutrina econômica para um “sistema normativo que ampliou sua influência ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida” (Dardot; Laval, 2016, p. 7). Nesse sentido, a obra busca fornecer subsídios à crítica ao neoliberalismo, na medida em que desfaz consensos e equívocos em torno dele.

A nova razão do mundo é o segundo livro publicado em conjunto pelos autores e resulta das investigações desenvolvidas no grupo de estudos e pesquisa que coordenam Question Marx. O primeiro livro derivado dos seminários Question Marx, Sauver Marx? Empire, multitude, travail immatériel (2007), faz uma crítica ao pensamento de alguns pós-marxistas, entre eles Michael Hardt e Antonio Negri, que entendem ser a autossuperação do capitalismo o resultado de suas próprias contradições internas e acatam a crença progressista segundo a qual todo passo dado pelo capitalismo é um avanço em direção ao momento de sua autossuperação. A nova razão do mundo se apresenta como continuidade dessa investigação, apontando como e porque “ainda não terminamos com o neoliberalismo”, quando muitos autores, no ápice da crise financeira internacional, como Joseph Stiglitz, anunciavam seu fim.

O livro está dividido basicamente em duas grandes partes: A refundação intelectual e A nova racionalidade. A primeira parte é, em certo sentido, uma tentativa de retomar o debate aberto por Michel Foucault nos cursos do Collège de France de 1977-1978 e 1978-1979, expostos respectivamente nos livros Segurança, Território, População e O nascimento da biopolítica, apontando como se forma o neoliberalismo, como nova racionalidade do capitalismo contemporâneo. O ponto de partida da investigação dos autores é a crise do liberalismo, ou crise da governamentalidade liberal, nos termos de Michel Foucault, que dura entre 1880 e 1930. O objetivo é mostrar que o neoliberalismo não é uma simples continuidade das ideias liberais, mas, antes, marca um rompimento com a versão dogmática do liberalismo, que via no laissez-faire uma verdade inalienável. Enquanto o liberalismo clássico passava por uma profunda crise, a Revolução Russa, o avanço do socialismo e a disseminação das ideias de esquerda por toda Europa ameaçavam os liberais, impondo-lhes a necessidade de reformulação teórica do liberalismo. É nessa conjuntura de crise política, econômica e teórica que surge a principal tentativa de refundação do liberalismo: o Colóquio Walter Lippmann, em 1938. A partir do Colóquio, duas grandes correntes de pensamento neoliberal surgirão: a corrente austro-americana, representada por Friedrich A. Hayek e Ludwig von Mises, e a corrente ordoliberal alemã, cujos principais expoentes foram Walter Eucken e Wilhelm Röpke.

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terça-feira, 23 de abril de 2019

Elias, liberdade individual e relações sociais


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

A ideia de "liberdades individuais", para mais ou para menos, é um dos fundamentos das sociedades modernas. Na vida real, a perspectiva da garantia dos direitos individuais para as minorias de poder acaba violada em amplos aspectos. Isso coexiste com a retórica do mercado como bastião da liberdade. Para alguns, qualquer influência da sociedade na economia, via Estado, seria uma afronta à soberania dos indivíduos. Forja-se um caldeirão fervendo de apologia ao livre mercado e, tudo junto e misturado, adesão ao conservadorismo moral.

Certa vez, uma badalada representante política desse ultraliberalismo na economia disse a seguinte frase: "não existe essa coisa de sociedade; o que existe são os indivíduos e suas famílias". Esse genuíno preceito individualista tem pautado com força o debate político brasileiro. Ele projeta as realizações de cada pessoa suplantando a importância das relações que estabelecemos uns com os outros. É como se um amontoado de pedras soltas pudesse ser considerado uma casa.

O sociólogo alemão Norbert Elias ensina que, ao espaço objetivo das relações sociais, das relações cotidianas entre indivíduos, podemos dar o nome de "sociedade". Não se trata de pensar que o todo conforma a parte, ou a sociedade conforma o indivíduo. A questão é entender que somos, individualmente, produzidos na interdependência com outras muitas pessoas, no contexto de estruturas sociais que atravessam a vida individual e coletiva.

Uma sociedade pode ser vista como uma rede de tecido. Nessa rede, vários fios individuais se ligam uns aos outros, mas a totalidade da rede e a forma que cada fio assume não podem ser entendidas como resultado de um fio exclusivo ou mesmo de todos eles, se pensados individualmente. Para entender a rede, precisamos entender a maneira como se ligam os fios, a interdependência entre eles. Suas ligações dão formato a uma estrutura de tensões influenciada por cada um dos fios, de modo diferenciado conforme a localização e a função de cada fio para a totalidade da rede. Um fio individual pode ser modificado diante de alterações na estrutura das tensões e da própria rede como um todo. Porém, a rede segue sendo fruto de uma ligação entre fios individuais, cada fio constituindo uma unidade em si, com singularidade no interior da totalidade da rede.

Quais indivíduos queremos ser? Qual sociedade queremos para viver? De alguma forma, precisamos resgatar a noção prática de que nossa individualidade tem que ser garantida, mas pra isso depende da garantia das demais. Não é mais possível banalizar tanta desigualdade, tanta opressão e injustiça. A combinação entre liberdade absoluta aos interesses de mercado (uma "sociedade de mercado" e não mais uma economia de mercado regulada pelos interesses da sociedade), os variados fundamentalismos étnicos, morais e religiosos do tempo presente e um suporte tecnológico jamais visto pode gerar diferentes "absolutismos do século XXI", estruturas de relações e tensões bem distantes do ideal de uma sociedade aberta, democrática e plural.

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domingo, 7 de abril de 2019

O que é o neoliberalismo?


Por Daniel Andrade
Sociologia FGV/São Paulo
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O neoliberalismo é um conceito polêmico. Desde o Colóquio Walter Lippmann (1938) e da primeira reunião da Sociedade de Mont Pèlerin (1947), a formulação designou, entre seus partidários, mais um campo de debate do que propriamente um consenso. Ordoliberais de Freiburg, Escola Austríaca, Escola de Chicago e representantes da London School of Economics e da Manchester School compartilhavam a mesma utopia de livre mercado e a mesma posição contrária ao intervencionismo econômico e ao planejamento estatal centralizado (keynesiano, socialista ou desenvolvimentista), mas não tinham opinião comum sobre o papel legítimo do Estado, sobre as diretrizes de política econômica ou sobre a experiência fracassada do laissez-faire do século XIX (Peck, 2010). A dimensão polêmica do termo ganhou nova roupagem com as reformas liberalizantes de Pinochet no Chile em 1978. A partir de então, o conceito passou a ser adotado quase que exclusivamente por seus críticos para designar pejorativamente a onda de desregulamentação dos mercados, de privatização e de desmonte do Estado de bem-estar ao redor do mundo (Boas & Gans-Morse, 2009; Venugopal, 2015). Diante da virada infamante, seus adeptos abandonaram a designação no mesmo momento em que a visão neoclássica se convertia na nova ortodoxia econômica, não havendo mais a necessidade estratégica de nomear a própria posição, mas de naturalizá-la (Hilgers, 2011; Boas & Gans-Morse, 2009).
 
Na década de 1990, o conceito depreciativo se estendeu para além de um modelo de política econômica, passando a designar uma ampla série de fenômenos políticos, ideológicos, culturais e espaciais e, por fim, a própria época, convertendo-se no termo pelo qual a sociedade contemporânea se apresenta a si mesma (Venugopal, 2015; Haber, 2013: 127). Sua difusão estendeu-se aos movimentos sociais e às lutas anticapitalistas, como os Zapatistas, os Gatherings for Humanity and Against Neoliberalism, as greves francesas de 1995 e os movimentos altermundialistas, tornando-se popular entre a militância internacionalmente (Brenner & Theodore, 2002: 352). É assim que o termo deixou de designar um debate entre economistas para ser utilizado apenas por seus críticos, muitos não economistas nem acadêmicos, ganhando um uso cada vez mais amplo e vago.

Foi somente a partir dos anos 2000 que a polêmica ao redor do neoliberalismo se requalificou academicamente, com cientistas sociais de diferentes especialidades se esforçando por oferecer definições mais precisas. Além das contribuições de Pierre Bourdieu, Loïc Wacquant e David Harvey, o debate se renovou com a publicação póstuma do curso de Michel Foucault intitulado Naissance de la biopolitique (2004). A partir de então, mesmo mantendo uma postura crítica, todo um trabalho foi realizado no sentido de definir o conceito ou por relação à sua doutrina teórica, enfatizando as principais escolas e pensadores, a proveniência e a trajetória das ideias e o contexto e as circunstâncias em que emergiram (Mirowski & Plehwe, 2009; Peck, 2008), ou por relação ao chamado “actually existing neoliberalism”, destacando sua implementação prática, seus fenômenos, suas estratégias, suas esferas de atuação e dinâmicas (Brenner & Theodore, 2002; Dardot & Laval, 2009; Wacquant, 2012). Por fim, o último impulso veio com a crise financeira de 2008, que recolocou politicamente a questão dos limites, da continuidade e das alternativas ao neoliberalismo (Duménil & Lévy, 2014; Peck, Theodore & Brenner, 2012a; 2012b; Mirowsky, 2013; Davies, 2014; Dardot & Laval, 2014).

O objetivo deste artigo é apresentar esse recente debate das ciências sociais sobre a pertinência e a definição de neoliberalismo. As questões sobre a validade do conceito, de seu embasamento teórico, do nível adequado de análise e dos fenômenos que ele designa estão no centro dessa disputa ao mesmo tempo acadêmica e política. Defendo a reabilitação do conceito pelas ciências sociais brasileiras devido à sua importância como saber estratégico. Ele tem o potencial de desfazer o isolamento acadêmico, pois atravessa diferentes disciplinas (sociologia, antropologia, ciência política, economia, geografia, história e filosofia), e de dialogar com as lutas sociais, sendo um termo utilizado por movimentos e atores políticos para identificar seus alvos.

Ainda que o tema do neoliberalismo interesse a diferentes disciplinas, retoma-se aqui o debate reagrupando-o a partir da perspectiva das principais teorias sociológicas. Não há a pretensão de esgotar a bibliografia recente, até mesmo pela impossibilidade resultante de sua profusão. Busca-se apenas apresentar os textos mais centrais no cenário atual.

O artigo se estrutura do seguinte modo. Na primeira parte, expõe-se a polêmica a respeito da validade do conceito, procurando apresentar e responder aos principais argumentos contrários ao seu uso pelas ciências sociais. Na segunda parte, apresentam-se os dois principais eixos de análise. Primeiro eixo, aquele que oferece definições da “essência” do neoliberalismo, ou seja, os elementos centrais que o caracterizam do ponto de vista teórico e dos fenômenos designados. A exposição é agrupada conforme as teorias sociológicas que tratam do tema: foucaultiana, marxista, bourdieusiana e weberiana. Segundo eixo, as discussões a respeito da existência não de um, mas de múltiplos neoliberalismos, que deslocam o nível de análise ao enfatizar a irredutibilidade geográfica e histórica de seus processos. As abordagens teóricas aqui também são diversas: o pós-colonialismo, o neorregulacionismo e o hibridismo governamental. Na conclusão, retoma-se o argumento em favor da utilização estratégica do conceito, sem ignorar as divergências políticas que as diferentes teorias implicam.

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