SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 11

América do Sul, Brasil,
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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O método sociológico em Marx


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

O materialismo histórico e dialético proposto por Karl Marx está associado a uma concepção de realidade, de mundo e da vida em sociedade. Ao entrar em contato com os problemas sociais da Alemanha, Marx começa a desenvolver uma concepção materialista, procurando entender os problemas concretos das vidas das pessoas.

Os estudos de Marx provinham do método de pesquisa e pensamento de Friedrich Hegel, com o seu modelo idealista orientado pela lógica dialética. Para Hegel, o pensamento metafísico se pautava pela tendência a perceber os conceitos de modo estático, separados uns dos outros, com a definição isolada do sujeito e do objeto. Contrapondo a metafísica, Hegel define o desenrolar da história humana não como um fio dotado de continuidade e linearidade, mas como um devir formado por uma tríade localizada no mundo das ideias: uma afirmação (tese), uma negação (contradição, antítese) e a negação da negação (síntese).

Essa perspectiva se associa ao conceito de “dialética”, retirado da filosofia pré-socrática, sobretudo no “embate” entre Heráclito e Parmênides. Enquanto o primeiro sustentava que tudo está em constate movimento e transformação (“o rio que nos banhamos nunca é o mesmo, nem mesmo nós somos”), o segundo defendia a tese de que o movimento e a transformação constituem apenas um mundo de aparências, sendo a “essência” algo imutável.

Marx adere à leitura dialética da história, seguindo sua leitura de Hegel. Contudo, em contato com as teorias materialistas, sobretudo de Ludwig Feuerbach, passa a ser influenciado pela abordagem que não vê nas ideias (idealismo, como em Hegel) o eixo articulador das atividades humanas, mas no mundo material o seu foco principal. Trata-se de uma inversão da dialética hegeliana, priorizando a matéria antes das ideias, o que acaba definindo o “materialismo histórico e dialético” como o método analítico marxiano.

O materialismo histórico e dialético fundamenta-se no método dialético de Hegel, salientando não o mundo das ideias, mas mundo material. Marx entende que, na produção social da sua existência, os seres humanos tecem relações específicas que são independentes das suas vontades particulares, mas dizem respeito a relações de produção material. Essas relações de produção, em conjunto, conformam a estrutura econômica das sociedades, a base sob a qual se ergue a superestrutura jurídica, política, religiosa e etc, que correspondem a determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida concreta, material, condiciona o desenvolvimento da vida em sociedade, da vida política e intelectual como um todo. Marx deixa claro que, no se esquema analítico, não é a consciência dos homens que define a sua vida social, mas a sua vida social que define a sua consciência.

É preciso, também, fazer uma distinção entre o método de exposição formal e o método de pesquisa, em Marx. A pesquisa necessita captar detalhadamente a matéria, analisar suas diferentes formas de evolução e investigar as suas íntimas relações. Terminado esse trabalho minucioso de pesquisa, torna-se possível expor adequadamente o movimento do real. A exposição deve espelhar em forma de ideias o que acontece na vida material, na vida concreta dos seres humanos em sociedade, num determinado momento histórico e nas suas relações com o passado.

Dessa forma, o percurso do método de pesquisa é mais amplo, mais detalhado, sendo que o método de exposição expressa uma síntese da análise concreta, que pode ser apresentada, inclusive, em sequência diferente de como foi aplicado o método de pesquisa. Isso porque o método de exposição das conclusões de qualquer estudo deve primar por apresentar os resultados de maneira pormenorizada, fazendo com que estes resultados sejam claramente compreendidos por outras pessoas.

No materialismo histórico e dialético, entender a realidade social demanda analisar, pelo pensamento, um conjunto amplo de relações, particularidades, detalhes que compõem uma totalidade. Se o objeto de análise do pensamento é mantido isolado, ele se torna imobilizado no próprio pensamento, convertendo-se numa mera abstração metafísica. Contudo, a abstração é uma fase intermediária, pois, partindo de um mundo concreto e o levando até o nível da abstração, fica possível chegar a um concreto mais complexo, capaz de captar o que é verdadeiramente importante. Sem passar pela abstração, o concreto é apenas superficial, vinculado apenas às aparências.

O principal trabalho de pesquisa de Marx, a crítica rigorosa do capital, mostra-se como um exemplo evidente do uso do materialismo histórico e dialético, na busca por revelar a dinâmica da produção e da transformação do ser social produzido pelas relações de produção capitalistas. O método marxiano procura partir do real, do concreto, do olhar caótico sobre um todo desorganizado; depois, analisando com maior precisão, utilizando dos recursos da abstração, procura delimitar conceitos cada vez mais simples; por fim, do concreto permeado por abstrações, bastante detalhado, procura iluminar as determinações do fenômeno em estudo de maneira simples e objetiva. 

Referências

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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