SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 11

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segunda-feira, 17 de junho de 2019

O método sociológico em Weber


Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Contrariando qualquer forma de determinismo, o alemão Max Weber é considerado um dos clássicos da Sociologia e fundador de uma tradição bastante fecunda nas Ciências Sociais. Weber destoa dos autores que propunham abordagens metodológicas para as ciências da sociedade a partir de laços estreitos com as ciências da natureza. Segundo o autor, não é possível tratar as relações entre seres humanos como “coisas”, ou encontrar uma “linha mestra” (teleológica) da História humana.

Para produzir uma ciência da vida social, é fundamental compreender a ação das pessoas desde o ponto de vista do sentido e dos valores que elas atribuem às suas ações, e não simplesmente desde pretensas causas e condicionamento externos. A trajetória de Weber abrange a proposição de construir um quadro conceitual para dar conta do conjunto das atividades humanas, situando-as nos seus períodos históricos específicos. Às ciências do comportamento humano cabe resgatar e compreender a marca característica de cada época e de cada cultura, demarcando-as na dimensão dos fatos, e não das abstrações por si só.

Weber deixa claro que é preciso separar a Sociologia da opinião. A Sociologia não teria como objetivo amparar reformas ou revoluções sociais, na medida em que demanda uma “neutralidade axiológica”, um guia para o cientista social capaz de mantê-lo sempre atento às diferenças entre o que é “normativo” e o que é “real”, ou entre o que é “juízo de valor” e o que é “juízo de fato”. Nada disso significa que o sociólogo não possua valores pessoais ou opiniões sobre quaisquer fenômenos da vida coletiva, mas, sim, que esses juízos de valor não podem macular o trabalho científico, ligado aos juízos de fato. A Sociologia não é uma atividade especulativa ou uma analítica conectada ao exercício da política.

Não obstante, como se pode definir o método sociológico, na visão weberiana? Na perspectiva de Max Weber, a Sociologia deve ser definida como uma ciência que pretende compreender e interpretar as atividades sociais e, assim, capacita-se a explicar as causas, os processos e os efeitos das ações humanas em sociedade. Tais atividades sociais são definidas pelo autor como “ação social”, caracterizando o comportamento humano que produz sentidos subjetivos e se orienta e se relaciona com o comportamento de outras pessoas. Dessa forma, nem toda atividade ou ação humana é uma “ação social”, pois ela demanda uma relação ou orientação para com outras pessoas ou grupos de pessoas. A compreensão e a interpretação das causas e efeitos das ações sociais constituem o objeto próprio da análise sociológica.

A Sociologia weberiana é uma ciência compreensiva e explicativa, cujo centro analítico reside em compreender e explicar os valores e sentidos pelos quais se pautam as ações sociais. Contudo, essa dimensão compreensiva em termos metodológicos não é uma criação de Weber, mas remete ao filósofo alemão Wilhelm Dilthey e a toda uma posterior corrente de pensadores “neokantianos”. Com a obra “Introdução às ciências do homem” (1883), Dilthey promove uma separação relevante entre os métodos das ciências da natureza e os métodos das “ciências do espírito”. A distinção principal entre os métodos se deve ao fato de que as ciências humanas lidam com seres dotados de consciência e que agem motivados por valores, crenças, representações e racionalidade, não se limitando a reagir aos estímulos dos ambientes que frequentam.

Em virtude disso, as ciências humanas não podem se vincular ao positivismo, e precisam adotar o método compreensivo, reconstituindo o sentido que os indivíduos atribuem às suas ações. Os fenômenos sociais não são simples consequências de pressões externas ou causas que se impõem às pessoas. A vida em sociedade é o resultado das decisões levadas a cabo pelos próprios indivíduos, que agem produzindo sentido às suas ações. Em Weber, a procura por evidenciar as causas dos fenômenos sociais é o complemento lógico da Sociologia compreensiva. Explicar é perceber a analisar o efeito de uma ação X sobre uma ação Y, buscando as conexões entre as ações sociais através de cadeias causais. Quando se dá forma a esse encadeamento causal, faz-se perceptível as possíveis contradições e os possíveis conflitos oriundos dos sentidos dados pelos indivíduos no decurso das suas ações.

Conforme o sociólogo alemão, a vida em sociedade possui uma pluralidade de causas, sendo cada sociedade singular e passível de ser explicada por meio de uma combinação de múltiplos fatores: econômicos, políticos, culturais, morais e etc. A ciência da sociedade pode apontar tendências e probabilidades. A Sociologia não tem condições de dizer o que os indivíduos devem fazer, pois ela é uma ciência empírica, devendo analisar aquilo que os sujeitos podem ou querem fazer. Weber se utiliza das comparações em diversos momentos da sua obra, o que fornece a possibilidade de destacar as singularidades das configurações históricas, sociais, religiosas e etc. – tudo aquilo que o cientista social pode estudar.

Weber sugere, ainda, o uso de um instrumento conceitual definido como “tipo ideal”. Na tarefa de analisar as ações sociais, o cientista pode criar categorias que não consistem em representações exatas dos fenômenos estudados, mas acentuam deliberadamente determinados trações desses fenômenos. O tipo ideal não é um espelho da realidade, mas auxilia na análise dos componentes da realidade a ser pesquisada. Trata-se de uma ferramenta de investigação com fundamentos totalmente lógicos, e não um fim em si mesmo. O tipo ideal é útil, também, para a busca de causalidades, pois comparando a realidade de um fenômeno e a lógica do seu tipo ideal, o sociólogo pode captar e confirmar a coerência do fenômeno e distinguir as causas exteriores que recaem sobre ele.

Referências

LALLEMENT, Michel. História das ideias sociológicas: das origens a Max Weber. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

WEBER, Max. Metodologia das Ciências Sociais. São Paulo: Editora Cortez, 2016.

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