SOCIOLOGIA & OPINIÃO / ANO 11

América do Sul, Brasil,

segunda-feira, 6 de abril de 2020

É para isso que serve a Sociologia?


Por Karen Kendrick*
Albertus Magnus College

Nesse momento, planejo uma aula para meus estudantes sobre como o capitalismo e a globalização criaram as condições para a pandemia do COVID-19. Estou fazendo isso porque a universidade em que trabalho me pediu para migrar minhas aulas para plataformas online pelo resto do semestre. Tendo em vista quem eu sou e o que ensino, decidi que vou pedir para os alunos estudarem sociologia durante a pandemia, só tenho uma escolha. Tenho que ensiná-los sobre como sociólogos pensam a respeito de pandemias.

Então pensei em começar da mesma forma que inicio meu curso de Sociologia da Saúde e da Doença. Na primeira aula introduzo o estudo da epidemiologia - uma palavra bonita que significa os padrões de saúde e doença entre populações humanas [1]. Direi algumas coisas sobre como os seres humanos tinham uma expectativa de vida muito mais curta que atualmente e como vimos alguns períodos de aumento dessas taxas, mas a grande mudança na expectativa de vida dos humanos veio entre 1900–1930 durante a transição epidemiológica. A expectativa de vida para homens brancos nos EUA passou de 47 para 60 anos e para homens negros de 33–48. Por um longo tempo nos parabenizamos por esse aumento, devido à melhoria dos sistemas sanitários e de esgoto, e estes foram muito importantes. Mas os fatores mais importantes na transição epidemiológica foram uma melhoria generalizada nas condições nutricionais e de vida - ar limpo e abrigo. Comer bem e não viver amontoado em moradias precárias nas cidades industrializadas ou vilas de camponeses melhorou nossos sistemas imunológicos e reduziu a quantidade de pragas e influenza que espalhamos entre nós.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Manifesto: Diretrizes e medidas de combate à pandemia do corona vírus e para a recuperação da economia (UFRGS)


Professores da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS lançam manifesto com 32 sugestões de diretrizes e medidas de combate à pandemia do corona vírus e para a recuperação da economia. Os professores destacam as medidas contundentes que vêm sendo adotadas nos países em que a pandemia atingiu níveis mais graves e chamam a atenção para a necessidade de o Brasil seguir os mesmo passos, abandonando a timidez e mobilizando amplos recursos dos setores público e privado no imediato combate à crise. Não é hora para inação. O manifesto inclui medidas imediatas para suporte ao setor da saúde, medidas de sustentação do emprego e da renda no curto prazo enquanto durar a pandemia, medidas para assegurar disponibilidade de serviços de utilidade pública e habitação enquanto durar a pandemia, medidas de apoio a empresas fortemente atingidas pela pandemia e de garantia do abastecimento dos bens de primeira necessidade e medidas para recuperação e sustentação da economia.


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terça-feira, 24 de março de 2020

Cientistas Sociais e o coronavírus


Por Rodrigo Toniol
Antropologia UNICAMP


Boletim n. 1 da Associação Nacional de
Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS)

A pandemia do Corona colocou nas nossas conversas cotidianas pelo menos três tópicos: questões biológicas sobre a dinâmica do vírus, a gestão política em tempos de epidemia e o crescente e generalizado pânico das populações. Sobre esses temas e, principalmente, sobre a articulação entre eles, as ciências sociais têm se dedicado há décadas. Somente nos últimos anos podemos recuperar os trabalhos sobre Zica, ebola, aids, malária e SARS. Pesquisas que receberam financiamento, que foram conduzidas com rigor e que agora nos ajudam a entender o momento que vivemos e também a imaginar algumas saídas para reduzir o impacto que o Corona terá em nossas vidas.

Pensando nisso, reunimos uma breve bibliografia de textos que abordam o tema das epidemias, do contágio e do controle de doenças a partir de uma perspectiva das Ciências Sociais. Ao longo dos próximos dias incluiremos novas referências, que permanecerão disoníveis no link abaixo.

Com relação ao COVID-19, especificamente, houve uma uma resposta rápida por parte do site “somatosphere”, que publicou no dia 06/03 um fórum de debates que reuniu historiadores, cientistas políticos, sociólogos e antropólogos dispostos a refletir sobre os impactos dessa nova pandemia.

Este também é um momento oportuno para revisitarmos o blog da antropóloga Soraya Fleischer (UnB), que junto com seu grupo de pesquisa, apresenta histórias das pessoas que continuam vivendo os impactos da epidemia do Zica Virus. O Zica também foi tema da produção audiovisual de Debora Diniz, cujo curta metragem nos permite chegar mais perto dos dramas e dilemas de ser afetado por uma epidemia.

Como já temos percebido, os efeitos do Corona estão muito além de ser contagiado ou não. As ciências sociais nos ajudam a perceber como as epidemias nos afetaram ao longo da história e como o debate sobre as formas de reagir a ela sempre envolvem questões que extrapolam o agente biológico. Essa também é a hora de olharmos para o conhecimento produzido pelas Ciências Sociais.


segunda-feira, 2 de março de 2020

Abordagens qualitativas e quantitativas na pesquisa sociológica

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor
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A pesquisa sociológica costuma ser classificada a partir de duas abordagens, a qualitativa e a quantitativa. Porém, ambas as abordagens se relacionam com alguns pressupostos, como as discussões ontológicas e epistemológicas. Em conjunto com os aspectos metodológicos e técnicos, essas discussões constituem o centro deste texto.

Donatella Della Porta e Michael Keating, em “Approaches and Methodologies in the Social Sciences”, organizam este debate categorizando quatro “correntes teóricas”. Do ponto de vista ontológico, as principais questões são: a realidade social existe enquanto entidade coletiva? É possível conhecer a realidade social? Do ponto de vista epistemológico, coloca-se as seguintes questões: como se dá a relação entre pesquisador e objeto de pesquisa? Que tipo de conhecimento é possível produzir?

A primeira corrente teórica citada pelos autores é o positivismo, que aparece em Augusto Comte, Herbert Spencer e, para alguns, em Émile Durkheim. Trata-se de uma escola fundadora da Sociologia como disciplina especializada, e que enxerga as Ciências Sociais como semelhantes às demais ciências. A realidade social é uma entidade externa ao observador, cognoscível na sua totalidade. O pesquisador deve descrever e analisar essa realidade. Pesquisador e objeto de pesquisa são diferentes e é possível que a pesquisa seja feita de forma neutra, sem que o pesquisador afete o objeto de pesquisa. O conhecimento resultante busca “leis”, “regularidades” e relações causais.

Num segundo momento, verifica-se a emergência do pós-positivismo ou neopositivismo, para quem a realidade social permanece entendida como objetiva e existente à revelia da mente humana. Entretanto, ela é imperfeitamente cognoscível. A ideia de “leis” é substituída pela ideia de “probabilidades”. Mesmo que não haja um rompimento com o positivismo no seu âmago, há uma flexibilização importante das suas prerrogativas lógicas e uma aceitação de algum grau de incerteza. O realismo crítico, por exemplo, de Roy Bashkar, define a existência de um mundo objetivo real, à medida que o conhecimento humano sobre ele é socialmente condicionado. A terceira corrente teórica é a interpretativista, na qual os significados objetivos e subjetivos estão bastante conectados. Subsiste uma forte crítica ao mecanicismo positivista, que é confrontado com a valorização da humanidade presente nos processo sociais. Pelo fato de os seres humanos produzirem significado o tempo, a pesquisa sociológica deve interpretar esses significados que motivam as ações. Dessa forma, a subjetividade atravessa o pesquisador, o objeto de pesquisa e o conhecimento produzido.

Mas é na quarta corrente teórica, a humanista, que a subjetividade ganha a sua maior relevância. É imperativo diferenciar as Ciências Sociais das Ciências da Natureza, pelo fato de que as primeiras passam sempre pelo filtro subjetivo por parte dos indivíduos, o que é uma característica importante tanto para a pesquisa, quanto para o objeto de pesquisa. Clifford Geertz argumenta nesse sentido, direcionando as Ciências Sociais para um tipo de “Ciências Interpretativas”. No extremo dessa corrente teórica, a realidade inexiste para além das imagens relativas e parciais construídas pela humanidade.

Diante das quatro correntes teóricas apresentadas por Della Porta e Keating, a pesquisa sociológica pode contar com estratégias metodológicas mais bem informadas. Os positivistas, em geral, trabalham com a linguagem das variáveis, como as “dependentes” (“explicadas”) e as “independentes” (“explicativas”). Com os pós-positivistas o contexto entra em cena e, mesmo que se mantenha a linguagem das variáveis, as relações entre elas não são tidas como válidas para todos os lugares e momentos. As abordagens quantitativas costumam ser relacionadas com essas perspectivas.As correntes interpretativista e humanista tendem a enfatizar casos específicos como entidades complexas, ressaltando o seu contexto. Nem causa e efeito, nem generalizações sãos incentivadas nessa orientação. Esse é o universo em que costumam se desenvolver as abordagens qualitativas.

Para cada orientação ontológica, epistemológica e metodológica, coexistem técnicas de produção e análise de dados empíricos. Entre as abordagens quantitativas, os questionários estilo survey tendem a ser um instrumento caraterístico de produção de dados. Para analisar esses dados, pode-se utilizar a estatística descritiva, destacando médias, medianas, frequências e tabulações cruzadas. Indo além, as análises de correspondência simples e múltipla são recursos valiosos para análises exploratórias, pois fornecem “mapas geométricos” de associações e distanciamento entre variáveis categóricas (entendidas como “modalidades”). A análise de variância (ANOVA) ajuda a entender se as diferenças entre médias são significativas ou não. As regressões lineares, por sua vez, possibilitam a construção de modelos que identificam os efeitos de uma (simples) ou mais (múltipla) variáveis independentes sobre uma variável dependente quantitativa, com dados em distribuição normal.

Quanto às técnicas de produção e análise de dados sob uma abordagem qualitativa, Martin Bauer e George Gaskell definem a necessidade de se captar e analisar valores, significados e aspectos simbólicos. Para isso, são adequados os estudos de caso, as entrevistas em profundidade, os grupos focais, as análises de conteúdo (que pode até flertar com a abordagem quantitativa), as análises de discurso e as etnografias. Essas são técnicas que aprofundam aquilo que é produzido no universo simbólico dos indivíduos e suas relações e interações.

Por fim, é sempre preciso dizer que as escolhas metodológicas devem estar relacionadas a um problema de pesquisa consistente e objetivos claros. Além disso, como fomenta Teresa Duarte, a possibilidade de “investigação a três” ou “triangulação metodológica”, sustentada em concepções ontológicas e epistemológicas bem discutidas, tende a auxiliar o avanço das Ciências Sociais.
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Trinta e cinco verões

Bernardo Caprara
Sociólogo e Professor

Diante do espelho, olho no fundo dos meus próprios olhos: daqui a poucas horas, 35 verões.

Passo um café. Nele, observo minha história. Com 15 anos, apenas um garoto, conhecendo as loucuras da vida, e começando a gostar das palavras escritas.

Aos 25, todas aquelas certezas, projetos e a sede cada vez maior de viver. Muito amor. Os primeiros anos de docência. E também tantas ilusões.

Hoje, quase aos 35, sou feito de dúvidas e escolhas. Sol, mar, areia, carinhos, amores... o tempo livre a admirar a lua cheia do verão, ouvir histórias ou contar os pelinhos no corpo de quem assim me deseja.

O poeta tem razão: o tempo é um caminho só de ida. Chegarei aos 45? Não tenho ideia. Sei que a sede e a fome de viver crescem em intensidade. O papo é reto e em ebulição. E por que não?

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